domingo, 5 de junho de 2011

Desafio literário: Peça teatral - Missa Leiga - Chico de Assis

Escolhi essa peça porque admiro profundamente o Chico de Assis, sagitariano, rebelde, de esquerda, alguém que quando abre a boca, te hipnotiza, fiz aulas de dramaturgia com ele no Teatro Sérgio Cardoso, não tinha pretensão de escrever para teatro, mas adorava as aulas só para ouvir "os causos" do grande mestre. Para mim, ele é um grande gênio brasileiro que o Brasil não reconhece, pois não não valoriza o teatro, muito menos quem escreve para teatro.
Missa Leiga, nas palavras do Chico, é uma oração pelo destino do homem e do mundo. Entre conhecer o homem e Deus, temos mais oportunidade de conhecer a humanidade. Eu assisti à peça, mas não tinha lido o texto ainda. Segue abaixo alguns fragmentos que me deu preguiça de digitar, mas valeu a pena.

Cena 4: Despojamento 
Corifeu
É possivel que o homem fosse criado para ser abandonado?
É possivel que o criador deixasse o homem de lado por causa do pecado?
É possível que o sofrimento esteja nos planos de Deus?
É possivel que a angústia seja um mandado divino?
É possível que a violência seja um acordo entre Jeová, Senhor dos exércitos, e a humilde condição humana?
É possivel que a dor e a fome sejam um legado da onipotência?

Cena 5: O sacrifício
Ator 1: Quem está disposto a ser traído? Não por um estranho, mas pelo seu melhor amigo?

Cena 20: Encerramento

Corifeu
Sermão secular e leigo que procede o encerramento dessa missa. Nos acostumamos à morte e ao genocídio como adquirimos vícios gerais, como fumar e beber. Estamos resistentes e intoxicados a qualquer notícia. Esperamos, como num jogo, ser personagem da tragédia. Aí então, nos desesperamos e tomamos providências. Aí então, gritamos, mas ninguém nos ouve porque o ar está poluído de berros lancinantes. Aí então, tentamos explicar o mal do mundo, mas ninguém nos ouve, ninguém tem ouvido para essas coisas.
Somos vítimas sintomáticas do nosso desinteresse pela vida, pela nossa apropriação sôfrega das migalhas e farrapos da alegria, sobradas do contínuo festim da violência.
A solidariedade humana é uma doutrina de condenados à morte, imediatos. O amor é o privilégio dos que vivem sob o risco da vida, nos andaimes do mundo, sob a marca da fatalidade planejada, marginal, debaixo das ordem de guerra e destruição. Quem entende de perigos é o equilibrista.
Quem sabe da felicidade é o recem-afogado no mar. Certas facilidades de sobreviência egoístas e pessoais castram no homem sua sensibilidade geral. A notícia do mundo é tão tragicamente forte que a humanidade devia chorar e se afogar num antidilúvio de lágrimas ou então refletir em formas de tortura, repensar as várias modalidades de assassinato, mastigar a fome e engolí-la sem água. O homem está calmo e feliz à esperam que invadam a sua casa, atirem sobre seu filho e violentem sua mulher.
Isso já aconteceu, só falta perceber esta humanidade contraditória, esta procura por seres abandonados à sua própria sorte por entre pedaços de corpos. Vamos escolhendo veredas que nos levem a todos, ao encontro do melhor lugar, onde será feita a nossa seara de sangue. É preciso começar alguma coisa que liberte a vida, que não limite o conhecimento pelas grades dos sentidos: olhos, ouvidos, olfato, tato e sonho.
Só uma consciência em cacos entende um mundo despedaçado. Só um ser inacabado e abandonado tem terror do finito e do infinito. É preciso seres desiguais e concordantes ao invés de iguais e discordantes. E isso já basta para uma nova forma de amor.

Corifeu
Deixa que eu seja como a flor do mato, semeada pelo vento ao sabor do acaso, Senhor!
Deixa que eu seja como o riacho louco que desenha em curvas inúteis sua própria estrada, Senhor!
Deixa que eu seja como a ave que acaba de aprender a usar as asas, mas não sabe para onde voar, apenas voa, Senhor!
Deixa que eu viva em constante amor sem poder saber nunca o que é o amor.

GRUPO 1: Vamos afastar do altar divino
GRUPO 2: Com as mãos limpas e lavadas e no rosto uma aparência de paz!

3 comentários:

  1. Tão lindo e tão profundo. Certamente um tesouro nacional que precisa ser revelado. Bela escolha!

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  2. Onde consigo o texto inteiro dessa peça?

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    1. Oi Maurilio, consegui gratuitamente na Secretaria da Cultura de Sao Paulo, em 2007, nao sei se hoje eles ainda distribuem.

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