domingo, 5 de novembro de 2017

Tag Feminismo e Literatura

Vi a tag neste Booktube francês entao decidi traduzir e responder:

1) Quando e como você passou a ter consciência feminista?
Desde criança, quando me diziam que isso ou aquilo nao era coisa de menina e eu me revoltava. Quando eu era obrigada a ser girly, boazinha e sorridente para agradar os outros. Na época nao sabia que rebelar contra isso era feminismo, mas hoje sei.

2) Quais sao suas autoras favoritas? 
Virginia Woolf, Charlotte Bronte, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Carson McCullers, Simone de Beauvoir, Alice Munro, Toni Morrison, Alice Walker,etc.

3) Qual é a sua heroina de ficçao favorita?

4) Qual o ultimo livro com mensagem feminista que você leu?
Estou lendo "The Power", da Naomi Alderman, para o clube de leituras feministas "Our Shared Shelf". 
As mulheres, por terem passado por agressoes fisicas, sexuais e psicologicas durante milênios, sofreram uma mutaçao e desenvolveram um instinto de autodefesa, assim como as enguias elétricas, de dar choques para imobilizar e até matar seus agressores.

5) Qual o livro feminista que mais te marcou?
"O conto da Aia", da Margaret Atwood, "Um teto todo seu" e um conto chamado "A Society", ambos de Virginia Woolf.
Vou aproveitar para falar deste conto porque nunca vi ninguém falando: Um grupo de amigas se encontram para o cha da tarde e depois vao conversar sobre homens e ovaciona-los "quao grandes, fortes, nobres, brilhantes, corajosos eles sao". Apenas uma delas acha o assunto chato, pois é lesbica e nao interessa nem um pouco pelos feitos dos homens. 
Elas nao tinham referências femininas, ja que o papel das mulheres na sociedade era casar e procriar. Começavam a engravidar desde muito jovens, parindo em média 10 filhos, enquanto o homem podia se dedicar à sua carreira brilhante.
A Virginia é ironica, tem aquele tipico humor inglês na hora de dar alfinetadas, ela questiona a necessidade de parir tantos filhos, seria para povoar as colônias?
Também fala da obsessao do homem pela castidade: "Chastity is nothing but ignorance - a most discreditable state of mind. We should admit only the unchaste to our society. It is unfair to brand women with chastity as with unchastity".
É um conto que discute gênero, maternidade, colonizaçao, guerra, literatura, etc.

6) Qual o livro que mais te irritou por ser cheio de clichês sobre mulheres?
"Émile ou de l'éducation", do Rousseau - Ele fala como um menino deve ser educado e no capitulo "Sophie ou la femme", ele ja começa dizendo que a mulher só existe para servir, dar prazer, obedecer e ser fiel o homem, deve ser linda, meiga, calma, magra, simpatica, calada e que deve se ocupar dos serviços domésticos. Se o cara que tinha ideias revolucionarias pensava assim, nem quero imaginar os que tinham a mente retrógrada.

"Oliver Twist", do Charles Dickens. Ele é um dos melhores escritores, mas é puritano-moralista, logo misogino e antissemita as hell. Neste livro tem duas personagens femininas, a boazinha com um final feliz e a puta, vitima de um dos feminicidios mais brutais da literatura.
Vou deixar umas passagens deste livro com chuvas de clichês e tirem suas proprias conclusoes:

"Quando uma mulher se irrita, principalmente quando é infeliz; pode chegar a um ponto tal que poucos homens se atrevam a provocá-la." (infeliz neste caso significa nao ter homem) 

" — É o diabo ter-se de tratar com mulheres — disse o judeu. — Mas elas são muito espertas, e nada se consegue sem elas."  
"As mulheres sabem sempre dizer as coisas em poucas palavras, exceto quando se enfurecem... porque então não acabam mais".  

"— É que você é mulher — replicou Brittles.— Brittles tem razão — disse o Sr. Giles, aprovando com um gesto o que ele acabava de dizer. — Da parte de uma mulher não se deve esperar outra coisa; mas nós, que somos homens, pegamos numa lanterna surda que estava na chaminé de Brittles e descemos a escada às apalpadelas, no escuro, assim". (a superioridade!) 

"O frescor nas faces da rapariga era tal que a fazia semelhante, se for isso de fácil suposição, a um anjo.Se muito, contava dezessete anos. Por ser tão fina e delicada, tão meiga e gentil, tão imaculada e bela, não encontrava par que pudesse fazer-lhe companhia. Dos olhos, brilhava uma inteligência que não parecia combinar nem com sua idade, nem com o mundo. Alternando candura e graça, as infinitas luzes que iluminavam sua face deixavam claro que tinha nascido para a paz e a felicidade caseira.Ocupava-se dos talheres; tendo visto os olhos da senhora sobre si, jogou infantilmente os cabelos para trás e sorriu, tomada de afeto e carinho." (a idealizaçao/infantilizaçao da mulher perfeita) 

"Abençoados sejam os olhos femininos por sempre enxergar apenas o lado comovente do mundo" 

"que se um homem se casa com uma mulher que tem uma mancha, o passar do tempo pode tornar tal esposa um peso para o marido que a sociedade vê ascender" (em busca da mulher imaculada) 

"— O posto do homem é o de chefe — continuou o Sr. Bumble.— E qual é o lugar da mulher? — indagou a viúva do Sr. Corney.— Obedecer, senhora — berrou o Sr. Bumble."  (a superioridade de novo!) 

"— Saiu — disse Fagin. — Mandei-a passear com outra rapariga porque queria conversar contigo a sós.— Certo, mas eu preferia que antes ela me preparasse algumas torradas com manteiga; mas fale, pois isso não me interromperá" (a mulher serviçal: como assim? Sai sem antes me servir?) 

"— Pobre Betty! Ela foi ver o cadáver, já com o rosto transtornado, e saiu louca, a gritar pela rua; foi preciso que se lhe metessem a camisa de força para arrastá-la ao hospício, onde ela está agora." (claro que nao ia faltar a louca-histérica que precisa ser internada) 

"a lei acredita que a mulher age segundo a determinação do marido" (a lei criada por homens, obvio!)
O Roman Polanski fez a adaptaçao cinematografica de Oliver Twist e nao colocou a personagem boazinha e nao mencionou que o aliciador de crianças era judeu como no livro. A adaptaçao do filme ficou melhor apresentavel, apesar do diretor, que é um otimo profissional e um ser humano/homem traste. É rir para nao chorar!
Entao, entramos naquele caso, como separar a arte do artista?
Sugiro três videos, em inglês: Rowan Ellis, Ariel Bissett, Savannah Brown

Neste outro artigo sobre a Flip, o autor Marlon James declara: “Charles Dickens defendeu manifestações que mataram mais de 400 jamaicanos. Era um filho da mãe. Ao mesmo tempo, poucos escritores tiveram uma influência tão grande na forma como estruturo meus livros”.

Um dia desses concordei com alguém que ha muita misoginia nas obras do Gabriel Garcia Marquez, foi tanta gente que se sentiu ofendida. Isso nao quer dizer que ele nao é um otimo escritor e que nao leio, pelo contrario, é so escrever o nome dele na busca deste blog e veja o quanto ja falei bem de suas obras, mas nao sou cega, nem fanatica e nao vou colocar mais um homem no pedestal e fingir que so vejo o lado bom. Inclusive inclui no meu comentario: se apagar a misoginia nas artes e literatura nao vai sobrar muita coisa. Eu nao sou a favor de nenhuma censura, pelo contrario, as pessoas tem mais é que ver isso, sentir o mal estar e perceber as injustiças cometidas pelos autores.
No livro Bad Feminist, da Roxane Gay, ela declara que escuta hip hop misogino e assiste à programas trash de tv que tratam a mulher como pedaço de carne, por isso ela se considera ma.

7) Que livro você recomendaria para quem tem interesse em começar ler literatura feminista? 
Um livro bem rapido de ler e sem complicaçao: Sejamos todos feministas, da Chimamanda


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

como ser a pior usuaria de Instagram do mundo

Ja falei aqui como ser a pior blogueira, hoje vou ensinar como ser a pior instagrammer.
Com o tal dos algoritmos, as pessoas sao obrigadas a curtir o maximo de fotos, comentar, ver os stories, usar hashtags e ter o perfil aberto. Se você nao fizer tudo isso, sua foto nao vai aparecer para os outros ou vai aparecer depois de 3 dias.

Bem-vindo ao episodio Nosedive, de Black Mirror:


Dar like/comentar para ganhar audiência: Eu so dou like sincero, se nao me interessa o que esta sendo mostrado eu vou curtir so pra fazer média? Not me, Satan! Comentar menos ainda.

Ficar puxando saco de digital influencer: Nao sigo, nao curto, nao me interessa a vida de Dorians Gray modernos que vivem de aparências.
"Uma pessoa definida pela ansiedade de ser curtida, temos uma pessoa sem integridade, sem um centro, um narcisista incapaz de tolerar que sua autoimagem seja manchada pela possibilidade de não ser curtido.
Se uma pessoa, no entanto, dedica sua existência a ser curtível e passa a encarnar um personagem bacana qualquer para atingir tal fim, isso sugere que perdeu a esperança de ser amado por aquilo que realmente é." (Jonathan Franzen - Como ficar sozinho)


Além de ficar curtindo e interagindo tem que postar conteudo, quanto mais futil, melhor. Tipo a poha de uma xicara de café. “Insignificance, my friend, is the essence of existence” (The Festival of Insignificance - Milan Kundera)


Como meu Insta funciona:
  • Tem cadeadinho, nao é perfil publico
  • Eu so dou like ou comento quando eu quero, quando acho relevante
  • Tenho preguiça de stories, eu até posto quando estou de bom humor, mas raramente vejo, às vezes no fim-de-semana e so de algumas pessoas.
  • Nao uso mais hashtags por ter um perfil privé.
  • A maioria das fotos é sobre livros que ninguém leu e so interessa a mim mesma, ainda por cima livros de biblioteca ou e-books e isso nao chama atençao, porque nao ostento uma estante e nao tenho parcerias. Ou seja, minha pontuaçao ta la embaixo. Se interessa so a mim mesma, qual a necessidade de jogar on-line? Melhor escrever um diario.


O que farei para reverter minha impopularidade? Absolutamente nada. Acho que os algoritmos refletem na vida virtual o que eu sou na vida real: introspectiva, sem graça e sem glamour.
Como disse Baudelaire: "Ninguém imagina o esforço sobre-humano que eu tenho que fazer para parecer com todo mundo". Portanto, prefiro ser eu mesma e não sou obrigada a me esforçar on-line, tenho mais o que fazer além de ficar dando likes o dia inteiro, só dou quando quero e não vou postar café para ganhar likes, vou continuar postando minhas fotos nonsense de coisas que me interessam e não de coisas para agradar o público. 
Ser eu mesma é resistência, contracultura? A  que ponto chegamos! 
Minha vida real é bem simples, trabalho 8 horas por dia, moro sozinha e tenho que por ordem no barraco: lavar, limpar, cozinhar. Sou de poucos amigos, quase um fantasma que entra e sai dos lugares sem ser notada. Tenho vida social sozinha. Sou arquivista, trabalho com documentos, tenho pouco contato com gente no trabalho. Sempre fui assim desde criança, interagir com humanos é muito dificil para mim, tenho crises de ansiedade e só me sinto bem quando sou eu mesma no meu canto ou com pouquissimas pessoas do meu convivio com quem me sinto à vontade.
Nao tenho Facebook, nem Whatsapp e nao vejo necessidade nenhuma em tê-los. Talvez eu nao dure muito tempo no Insta, talvez eu morra virtualmente ou apareça de temps en temps. O excesso de (des)informaçao cansa!


domingo, 8 de outubro de 2017

Hannah Arendt - Eichmann em Jerusalém - Parte 2

Ja falei da parte 1, "A corte" aqui.

O acusado


Adolf Eichmann nasceu em 1906, em Solingen, uma cidadezinha alemã. Na escola foi um aluno bem mediocre e não chegou a terminar o ensino médio.

Trabalhou como vendedor nas empresas Vacuum Oil Company e na Elektrobau Company, localizadas na Austria. Porém, era um empregado mediocre e foi demitido das duas.
Estava noivo de Veronika, com quem se casou e so o fez porque casados nao eram demitidos facilmente dos empregos e a taxa desemprego era altissima.

Entrou para o Partido, nao por ideologia, mas como muito alemaes, para sobreviver e conseguir trabalho. Nao teve tempo de se informar sobre o partido, cujo programa nem sequer conhecia e nem leu Mein Kampf.

Arendt observou o jeito que Eichmann se exprimia na corte, utilizando apenas frases feitas, clichês e linguagem burocratica. Segundo ela: "Quando mais escutava-o, mais era evidente que sua incapacidade de falar estava estritamente relacionada com sua incapacidade de pensar"

Ele nunca gostou dos empregos que teve, era um homem frustrado. Quando entrou na Sicherheitsdienst (SD) - serviço de espionagem, ignorava completamente a real natureza do lugar e foi uma decepçao. Também nao podia prever os proximos eventos.

Sua primeira tarefa na SD foi de arquivar informaçoes sobre a maçonaria. Na logica nazista maçon, judeu, catolico e comunista eram tudo farinha do mesmo saco. Ele também colaborou na formaçao do museu da maçonaria. Os nazistas criavam museus para perpetuar a memoria dos inimigos. Depois foi transferido para o departamento que cuidaria dos assuntos judaicos.

Para esclarecer sobre a burocracia, orgaos, departamentos e onde Eichmann trabalhava exatamente:

A SD (Sicherheitsdienst ) era um orgao subordinado à SS (Schutzstaffel) - esquadrao de proteçao, grupo paramilitar e policial nazista. Em seguida, a SD e a Gestapo (Geheime Staatspolizei) - policia secreta do Estado - passam a ser subordinadas à RSHA (Reichssicherheitshauptamt) - Escritorio central de segurança do Reich - que era dividida em 7 seçoes e inumeras subseçoes. O Eichmann trabalhava na Seçao IV (combate aos inimigos do Estado), subseçao B (seitas), sub-subseçao 4 (judeus).
Resumindo: ele trabalhava na seçao IV-B4 da RSHA que se ocupava do destino dos judeus e onde ele foi promovido a Obersturmbannführer, uma espécie de tenente-coronel, mas na realidade nao passava de um mero chefe da sub-subseçao de um departamento burocrata.

O terceiro capitulo é intitulado "Especialista em assuntos judaicos", pois foi esse o titulo que ele recebeu sem saber nada sobre a historia dos judeus. Eichmann, a pedido de seu chefe, leu a obra classica "Der Judenstaat" (O Estado Judaico), de Theodor Herzl, o pai do sionismo (movimento politico e religioso nascido pela nostalgia de Siao, ou seja, tinham o desejo de ter uma patria, pois os judeus viviam espalhados pelo mundo). Também leu "Historia do Sionismo", de Adolf Böhm e sempre confundia um livro com o outro. Ele achou a ideia sionista interessante e passou a fazer tudo o que estava ao seu alcance para a deportaçao dos judeus.

Primeira soluçao: expulsao

  • Imigraçao ilegal para Palestina 
  • Projeto Madagascar: Evacuaçao de 4 milhoes de judeus da Europa para esta ilha que estava sob o dominio francês, na costa da Africa e que ja tinha mais de 4 milhoes de pessoas da populaçao nativa. Nao tinha transporte suficiente para levar toda essa gente, pois as fronteiras estavam fechadas por causa da guerra, o mar era controlado pelos ingleses e a ilha controlada pelos franceses.


Segunda soluçao: concentraçao
Em 1939, o regime nazista tornou-se ainda mais totalitario e criminoso

  • Campos de concentraçao
  • Campos de exterminio


Soluçao final: exterminio
Estado Judenrein (sem judeus)

Segundo Arendt, Eichmann foi levado pelas circunstâncias, nao sabia exatamente o que estava fazendo e nem imaginava o tao complexo e perigoso o regime tornaria com o passar dos anos. Porém, ele cumpria as ordens e obedecia sem questionar seus superiores, como todo burocrata.
Ele nao era um monstro que queriam transforma-lo, era um homem comum, menosprezado por seus colegas e chefe, inofensivo, rejeitava a violência em seu cotidiano e era muito eficiente nas tarefas em que estava encarregado de cumprir. Segundo a autora, ele vivia em um Estado Criminal e desobedecer as ordens era um delito e violaçao da norma estatal, passivel de graves consequencias.
Ela questiona os meios usados por Israel para sequestra-lo na Argentina e condena-lo impondo a pena de morte.
O condenado junto com a defesa declararam que ele foi usado como bode expiatorio, pois estava pagando nao pelos crimes que cometeu, mas pelos crimes do regime em que fazia parte, ele era apenas um alemao representando todos o que serviram o regime. Ele nao era inocente, pois era de uma certa forma cumplice de forma indireta do que aconteceu e trabalhava no setor responsavel pela evacuaçao e deportaçao dos judeus. Embora ele tenha dito que nunca matou ninguém ativamente, indiretamente ele organizou as saidas dos trens para os campos de concentraçao.

A autora também expoe os paises que foram coniventes, inclusive enviaram judeus, comunistas, ciganos, intelectuais, entre outros para esses campos. Fala das igrejas protestantes e catolicas, incluindo o vaticano que nem sequer manisfestaram, so depois do fim do regime que algumas emitiram nota de perdao pela omissao. (Eita corja que dança conforme a musica!)

Ela também menciona os crimes barbaros cometidos pelos paises vencedores da guerra e que nunca foram a julgamento.

É um livro muito interessante para refletir sobre justiça, acusaçao, crimes de guerra,  direito internacional, responsabilidades, submissao, obediência cega, a transformaçao de crimes graves em algo banal e cotidiano, etc.


Recomendo outros livros que falam de processo e condenaçao de pessoas:


  • "Eu acuso!", de Émile Zola. É uma carta aberta ao Presidente Félix Faure, publicada no jornal "L'Aurore", em 1898, em que ele defende o capitao Alfred Dreyfus, um judeu que estava sendo acusado injustamente de vender informaçoes confidenciais para Alemanha. Além de denunciar toda a corrupçao do sistema politico e judiciario, Zola acusa-os de antissemitas.
  • "O ultimo dia de um condenado", de Victor Hugo. Um homem foi condenado e sera guilhotinado, nos leitores nao sabemos que crime ele cometeu. Ja falei do livro aqui
  • "O Processo", de Franz Kafka. Joseph K. esta em seu lar, a policia invade, confisca seus bens e leva-o preso. Ele nao sabe porque foi preso, pois nao cometeu crime nenhum e ninguém sabe informa-lo. Mostra um sistema altamente burocratico, cheio de regras, ninguém entende aquela bagunça, nem os leitores. 
  • "O Estrangeiro", de Albert Camus. Meursault é o cara mais apatico do mundo, nao tem um pingo de sentimento por ninguém e nem remorso ou arrependimento pelo homicidio sem motivo que cometeu. A corte passa a julga-lo mais por seu comportamento, sua indiferença e sua personalidade fria que pelo crime.
Veja também: 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Transexualidade no Irã

Vou começar definindo o que é transexualidade e homossexualidade segundo o dicionario. E ja corrigindo o  Michaelis que ainda usa a palavra transexualismo (antiga nomenclatura que classificava como doença, assim como também usavam a palavra homossexualismo).

tran·se·xu·a·lis·mo
Sentimento de profunda inadequação ao próprio sexo, acompanhado pelo desejo de adquirir as características físicas externas do sexo oposto, por meio de tratamento clínico e procedimento cirúrgico.

ho·mos·se·xu·a·li·da·de
Condição de homossexual

ho·mos·se·xu·al
1 Relativo a homossexualidade.
2 Diz-se de relacionamento sexual entre indivíduos do mesmo sexo.
Que ou aquele que tem atração sexual por indivíduos do mesmo sexo; entendido, gay, guei, invertido, uranista.

Resumindo: a pessoa trans nao se sente bem na pele em que habita e deseja mudar, pois se identifica melhor com as caracteristicas do sexo oposto. Ja o homossexual gosta de individuos do mesmo sexo.

Transexualidade no Irã


No inicio dos anos 80, os trangêneros foram oficialmente reconhecidos pelo governo e autoridades iranianas e autorizados a fazer cirurgia de mudança de sexo.
Em 1963, o aiatola Rouhollah Khomeini escreveu um livro dizendo que nao existe nenhuma restriçao religiosa que impeça a cirurgia corretiva. Hoje o Irã é o segundo pais em numeros de cirurgias de mudança de sexo, o primeiro é a Tailândia.
O Irã é uma republica islâmica, sob um regime fundamentalista, ou seja, o governo governa sob as leis da religiao, "deus" acima de tudo.
A homossexualidade é considerada crime e a condençao é a pena de morte. O que acontece é que os homossexuais, para nao serem mortos, sao obrigados a transicionar para serem "aceitos" na sociedade. Mera ilusao! Eles sao ainda mais excluidos. Se um homem transiciona em mulher, ele tem que portar a burka e andar nas normas impostas às mulheres. Como sabem, é melhor ser um animal que ser uma mulher neste lugar. A mulher so tem uma funçao: casar, procriar e passar a vida escondida atras de um véu. As trans nao podem procriar, logo nao casam. Os namorados homossexuais as abandonam porque eles também nao tem interesse pelo sexo oposto. O mesmo acontece para uma mulher que transiciona em homem. 30% desses trans acabam se suicidando apos a cirurgia, varios outros acabam na prostituiçao ou se jogam bem, fazem parte da seleçao feminina de futebol que é formado majoritamente por trans (WTF!!!).


Livro: If you could be mine, de Sara Farizan



A razao pela qual este assunto de transexualidade no Irã esta me incomodando é porque eu queria ler um livro de uma mulher que transicionou em homem para a maratona de leituras LGBTQ+ e pela descriçao que vi no Goodreads, este livro encaixava no que eu estava procurando. Porém, a personagem Sahar nao chega a transicionar, mas tem outros personagens que transitionaram e contam suas experiencias. 
É um YA e lê-se rapido, a escritora é americana de origem iraniana. Narra a historia de duas meninas de 17 anos, Sahar e Nasrin que estao apaixonadas uma pela outra, elas sempre foram amigas. Aos 6 anos de idade, Sahar disse à sua mae que iria se casar com Nasrin. A mae a repreendeu e disse que era pecado casar com pessoas do mesmo sexo.

Nasrin esta prestes a casar com um homem com quase o dobro da idade dela e Sahar esta desesperada em perder o amor da vida, entao inventa de transicionar, nao porque ela é trans, mas porque é o unico jeito de ficar com a Nasrin. Por crescer nesta cultura sufocante, ela acha errado sentir o que ela sente, por isso a unica soluçao é mudar de corpo e nao se assumir lésbica.


Ela estava determinada, sabe como é o primeiro amor, nao é? Você acha que deve sacrificar sua vida por ele.

Sahar vai a uma clinica e o médico começa a explicar os tipos de procedimentos da transiçao, o tratamento hormonal, etc. Ela até desmaia no final:

Sahar tinha um primo gay, o Ali que teve que fugir às pressas para a Turquia, pois tinha sido espancado.
Apesar de mostrar toda essa violência, é um livro bem bonito. Recomendo!

Documentario "Be Like Others" e reportagem da BBC


Resolvi pesquisar mais em outras fontes e fiquei chocada ao descobrir estes dois videos que mostram como é ser transexual. A maioria dos entrevistados sao homossexuais e nao queriam transicionar. Se você tiver estomago, assista (em inglês).




Psicologos, psiquiatras, psicanalistas e médicos a serviço do regime


Neste ultimo video, o reporter entrevista um profissional de saude mental que declara nao haver nenhum tipo de educaçao sexual, o acesso  à Internet é controlado, muitos sites sao censurados e nao existe lugar para buscar informaçao.
Esses profissionais nao trabalham de acordo com a Psicanalise ou Psicologia, mas com as leis do alcorao. Eles nao podem tratar os pacientes como deveriam, o unico tratamento sugerido ao paciente é abraçar a religiao, casar com alguém do sexo oposto para ser curado da doença e em casos mais graves, usam eletrochoques. Se o paciente nao reabilita, é morto.
Como estou lendo Hannah Arendt também, vejo os profissionais assim como vejo Eichmann. Que merda de "gente do bem"! Sem falar nesses médicos cirurgioes açougueiros que mutilam essas pessoas sem um pingo de ética e respeito com o ser humano.
So de ouvir que o Pastor Malafaia é psicologo chega me dar um frio na espinha, ele é perfeito para trabalhar na "cura gay" num regime fundamentalista.
A banalidade do mal é isso, é tanta merda no mundo que ninguém mais nem liga.

ONG no Canada


O Canada é um dos paises que acolhem os refugiados LGBTQs que sao perseguidos e ameaçados em seus respectivos paises. No documentario, o reporter entrevista o responsavel da ONG Iranian Railworld for Queer Refugees, localizada em Toronto. Quem mora aqui, entra no site, leia e se possivel contribua de vez em quando. Eles chegam aqui sem absolutamente nada e toda ajuda é bem-vinda. É o minimo que nos podemos fazer.

Filme Circunstancia


Ja falei aqui deste filme sobre homossexualidade feminina no Ira.



sábado, 2 de setembro de 2017

Hannah Arendt - Eichmann em Jerusalém - Parte 1

A Paula do blog Pipa nao saber voar, propôs uma leitura compartilhada de "Eichmann em Jerusalém", da Hannah Arendt e eu que ja tinha nos meus projetos o intuito de lê-la, inclusive ja tinha lido o livro de poesias dela, nao pensei duas vezes, mesmo estando no meio da Maratona de leituras LGBTQIA+

(Meu teclado nao tem alguns acentos do portugues).

Vou fazer varios posts de cada capitulo deste livro porque é muita informaçao e nao da para condensar tudo num post so. Nesta primeira parte vou comentar sobre o primeiro capitulo, intitulado "A corte", em que ela descreve tudo o que ela observava durante o julgamento.

Hannah Arendt propôs ao redator-chefe da revista semanal "The New Yorker", se ela poderia ir como correspondente cobrir o processo de Eichmann. Ele foi capturado na Argentina onde se exilou e levado para Israel para ser julgado pelos crimes cometidos durante o regime nazista na Alemanha.

Este livro gerou muita polêmica e ela foi severamente atacada até o fim de sua vida. O motivo da controversia era mais pela incompreensao e ma interpretaçao sobre o que ela escreveu. Tudo o que foi considerado polêmico, nem era o assunto principal do livro, eram fatos isolados e às vezes ela relatava o que alguém disse, nao era nem o que ela pensava. 
Por exemplo, ela citou e nao foi a unica, varios jornalistas e escritores falaram disso, pois era um fato e nao uma suposiçao, sobre a colaboraçao dos conselhos judaicos com os nazistas para a deportaçao de judeus. O que interpretaram é que ela estava querendo transformar as vitimas em culpadas, queria responsabiliza-las pelo proprio exterminio. Ela apenas citou o ocorrido sem tomar partido nenhum. Ai pegaram o texto fora do contexto e muitos que a atacaram nem sequer tinha lido o que ela escreveu. Quem cobrava explicaçao das vitimas nao era ela, era o procurador durante o processo o que ela fez foi relatar as ideias deste procurador, explicarei com mais detalhes adiante.

Outro babado foi ela usar o conceito "banalidade do mal", interpretaram que ela estava considerando o regime nazista algo banal, sem importancia, mas é totalmente o contrario. Ela disse que dentro de um regime autoritario, os crimes passam a ser banais, algo que ocorre no cotidiano e ninguém se importa com o que esta acontecendo. O que ela fez foi denunciar a alienaçao, a passividade e o medo que assola o povo em tempos sombrios.

Culparam-na de defender Eichmann, dizendo que ela mostrou mais compaixao por ele do que pelas vitimas (vou detalhar melhor no post do segundo capitulo). Porém, ela nao estava ali para defender ninguém, ela simplesmente relatou, sob seu ponto de vista, o que estava acontecendo em um mês que ela ficou em Israel fazendo a cobertura do processo. Por ser judia, esperavam que ela fizesse um texto sentimental, mostrasse emoçao, mas ele permaneceu neutra, manteve à distância para melhor refletir.

Capitulo 1: A Corte



Ela faz uma descriçao do local igual ao da foto, os três juizes, inumeros livros e mais de 1500 documentos na mesa, os magistrados, os tradutores, o acusado atras de um vidro e a defesa.
Logo na primeira pagina, ela fez uma critica de como o processo estava sendo conduzido. A lingua utilizada foi o hebraico, a traduçao em francês era excelente, em inglês aceitavel e em alemao, a unica lingua falada pelo acusado, era quase incompreensivel, quase cômico e nao era traduzido metade das coisas que o acusado falava. Ela comenta que com tantos judeus de origem alema que estavam la, a corte era incapaz de fornecer um tradutor adequado na unica lingua em que o acusado e a defesa poderiam compreender.

O advogado de defesa foi contratado por Israel. Ela também achou estranho a atitude do procurador geral (assunto que introduzi acima) que vinha o todo tempo com perguntas bestas e cruéis às vitimas: Como vocês deixaram isso acontecer? Por quê tanta passividade? Por quê vocês aceitaram morrer como ovelhas no matadouro? Como os judeus contribuiram, por intermediaçao de seus chefes, à anulaçao do seu proprio povo? Ele elogiava os judeus herois da resistência e menosprezava os submissos que aceitaram a condiçao. Ele insistia: Por quê vocês nao protestaram? Por quê vocês entraram no trem? Vocês eram quinze mil e os guardas apenas uma centena, por quê vocês nao se revoltaram? 

Arendt compara a corte a um espetaculo de teatro e os juizes como atores de uma tragédia em varios momentos. Questiona se Eichmann estava sendo realmente julgado pelos crimes que ele supostamente cometeu ou foi colocado la para pagar por todo crime nazista como se ele fosse o unico responsavel pelo sofrimento que o povo judeu passou. Ou seja, aquilo era justiça ou vingança? Estavam julgando o individuo pelos seus atos ou o regime nazista atraves da pessoa dele?

As testemunhas eram sobreviventes dos campos que começaram a narrar as barbaridades ocorridas nesses lugares. Mais uma vez: a corte estava induzindo o individuo a pagar pelas atrocidades do regime onde ele era apenas uma peça de toda a engrenagem?

Também comenta o papel do procurador durante as entrevistas e coletivas de imprensa na televisao. Nos EUA, o debate era sempre interrompido por publicidade imobiliaria. 

Processo de Nuremberg

Ela nao criticou apenas o processo de Eichmann, mas também o processo de Nuremberg (Tribunal militar internacional, criado pelos Aliados, localizado na cidade de Nuremberg, zona de ocupaçao americana), ocorrido em 1945-1946 que condenou 24 responsaveis pelo III Reich. O alto escalao realmente responsavel pelo regime ou tinha se suicidado ou exilado. So sobrou os paus-mandados, isso nao os isenta de julgamento, porque eles foram grandes criminosos sim, mas nao eram os peixes grandes como quiseram fazer o povo acreditar. Sao essas pequenas nuances que ela queria mostrar e foi atacada.

Resumindo em grosso modo: Apos a guerra o mundo nao sabia lidar com a situaçao, até entao nao existia um tribunal internacional, nao existiam leis contra crimes cometidos contra a humanidade, tudo foi criado meio às pressas. Hannah Arendt temia a transformaçao do tribunal em um espetaculo teatral e que os acusados fossem julgados pelos seus proprios crimes e nao pelo crime do Reich. Ela cobrava seriedade e neutralidade, a partir do momento em que a justiça vira vingança, os que eram antes injustiçados passam a agir como seus algozes. O problema do mundo em tempos dificeis é a incapacidade de refletir e a tomada de decisoes precipitadas.
Arendt colocou o assunto em pauta, nao querendo trazer uma soluçao, mas uma reflexao. Claro que os ânimos estavam alterados, pois ninguém é de ferro, tinha acontecido um genocidio. Porém, o perigo esta em revoltar-se ou submeter-se sem raciocinar ou medir as consequencias e isso é um assunto recorrente na obra da Hannah Arendt.

No Youtube tem o processo completo que durou um ano, você pode assistir como foi cada sessao e tirar suas proprias conclusoes. 



Proximo post é o capitulo sobre o acusado. Falarei da descriçao que ela faz de Eichmann.