quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O Anticristo, de Nietzsche

Continuando o curso de Pensamento Critico (recomendo para quem nao viu, consultar a parte 1 e parte 2 primeiro para nao pegar o bonde andando).

Na aula 1, descrevi o argumento de autoridade usado pela religiao e na aula 2 descrevi sobre os os dogmas e a laicidade. Hoje farei o resumo do primeiro livro que mostra o envolvimento religioso nos assuntos politicos e o dano que isto causa ao estado laico.

Em pleno ano de 2018, século 21, durante a campanha presidencial, ha candidato que usa o lema "Deus acima de tudo", evitando debates e tudo que é necessario para um estado democratico. Deus, assim como fada, unicornios e duendes, é algo subjetivo, cada um acredita se quiser, mas essa lorota ainda pega, porque a regra do dogma religioso é, ninguém questiona deus, logo nao vai questionar os que se auto-intitulam representantes dele na terra.


Quando alguém pretende representar, ele próprio, o “eleito de Deus” — ou “templo de Deus”, ou “juiz dos anjos” —, então qualquer outro critério de eleição, quer seja baseado na honestidade, no intelecto, na virilidade e no orgulho, ou na beleza e liberdade de coração, torna-se simplesmente “mundano” — o mal em si...
Como foi dito no resumo da aula 2: O exercicio do pensamento critico é incompativel com um estado teologico que é baseado numa autoridade dogmatica.
Estado laico: Caracteriza-se pela ausencia de religiao oficial e neutralidade absoluta, cada um pode se orientar como quiser. O estado laico nao privilegia e nem discrimina nenhum individuo por causa de suas crenças e trabalha em prol de todos. Garante a liberdade de consciência, diferente do estado teocratico.

O homem, no alto da sua arrogância, criou deus à sua imagem e semelhança para justificar suas atrocidades e mesquinhez.
O homem religioso pensa apenas em si mesmo.
Que não nos deixemos induzir em erro: eles dizem “não julgueis”mas condenam ao inferno tudo que fica em seu caminho. Ao deixarem Deus julgar, são eles próprios que julgam; ao glorificarem Deus, glorificam a si mesmos.

O cristianismo esta envolvido em todos os piores acontecimentos politicos e sociais desde o fim do Império Romano, passando pelas Cruzadas, Idade Média, colonizaçao, escravidao, nas Guerras, nos regimes totalitarios, etc. Sempre à caça de hereges, bruxas, mouros, comunistas, anarquistas, cientistas e por ai vai.

Tudo começa com a formaçao de rebanho (a.k.a massa de manobra) 
Paulo desejava o fim; logo, também desejava os meios. — Aquilo que ele próprio não acreditava foi prontamente engolido por suficientes idiotas entre os quais disseminou seu ensinamento. — Seu desejo era o poder; em Paulo o padre novamente quis chegar ao poder — só podia servir-se de conceitos, ensinamentos e símbolos que tiranizam as massas e formam rebanhos. Qual parte do cristianismo Maomé tomou emprestada mais tarde? A invenção de Paulo, sua técnica para estabelecer a tirania sacerdotal e organizar rebanhos: a crença na imortalidade da alma — isto é, a doutrina do “julgamento”. 
Nossa política está debilitada por essa falta de coragem!  São as valorações cristãs que convertem toda revolução em um carnaval de sangue e crime! O cristianismo é uma revolta de todas as criaturas rastejantes contra tudo que é elevado: o Evangelho dos “baixos” rebaixa...

E em seguida a servidao voluntaria, o orgulho de ser servo e domesticado
Existem pessoas sóbrias e eficientes, às quais a religião está pregada como uma orla de humanidade superior: estas fazem muito bem em permanecer religiosas, pois isso as embeleza. — Todos os homens que não entendem de um ofício qualquer das armas — a boca e a pena contam como armas — se tornam servis: para eles a religião cristã é útil, pois nela o servilismo toma o aspecto de uma virtude cristã e fica espantosamente embelezado. — Pessoas para quem a vida cotidiana é muito vazia e monótona se tornam facilmente religiosas: isto é compreensível e perdoável, mas elas não têm o direito de exigir religiosidade daquelas para quem a vida não transcorre cotidianamente vazia e monótona. (Humano, demasiado humano) 
O cristianismo visa dominar animais de rapina; sua estratégia consiste em torná-los doentes — enfraquecer é a receita cristã para domesticar, para “civilizar”. 

Medo, ameaça e ordem moral

Deus agora se torna meramente uma arma nas mãos de agitadores clericais, que interpretam toda felicidade como recompensa e toda desgraça como punição em termos de obediência ou desobediência a Deus, em termos de “pecado”: a mais fraudulenta das interpretações imagináveis, através da qual a “ordem moral do mundo” é estabelecida e os conceitos fundamentais, “causa” e “efeito”, são colocados de ponta cabeça.

A mentira sobre a “ordem moral do mundo” permeia toda a filosofia, mesmo a mais recente. 
O que significa uma “ordem moral do mundo”? Significa que existe uma coisa chamada vontade de Deus, a qual determina o que o homem deve ou não fazer; que a dignidade de um povo ou de um indivíduo deve ser medida pelo seu grau de obediência ou desobediência à vontade de Deus; que os destinos de um povo ou de um indivíduo são controlados por essa vontade de Deus, que recompensa ou pune de acordo com a obediência ou desobediência manifestadas. — Em lugar dessa deplorável mentira, a realidade teria isto a dizer: o padre, essa espécie parasitária que existe às custas da toda vida sã, usa o nome de Deus em vão: chama o estado da sociedade humana no qual ele próprio determina o valor de todas as coisas de “o reino de Deus”; chama os meios através dos quais esse estado é alcançado de “vontade de Deus”.

O Cristianismo contra a civilizaçao antiga e nas Cruzadas

O cristianismo nos fez perder todos os frutos da civilização antiga, e mais tarde nos fez perder os frutos da civilização islâmica. A maravilhosa cultura dos mouros na Espanha, que era fundamentalmente mais próxima aos nossos sentidos e gostos que Roma e Grécia, foi pisoteada (— não digo por que tipo de pés —). Por quê? Porque devia sua origem aos instintos nobres e viris — porque dizia sim à vida, e a com a rara e refinada luxuosidade da vida mourisca!... Mais tarde os cruzados combateram algo ante o qual seria mais apropriado que rastejassem — uma civilização que faria mesmo o nosso século XIX parecer muito pobre e “atrasado”. — O que queriam, obviamente, era saquear: o Oriente era rico... Coloquemos à parte os preconceitos! As cruzadas: pirataria em grande escala, nada mais!
A Igreja distancia-se até da limpeza (a primeira providência cristã após a expulsão dos mouros foi fechar os banhos públicos, dos quais havia 270 apenas em Córdoba). Também é cristã uma certa crueldade para consigo e para com os outros; o ódio aos incrédulos; o desejo de perseguir. Idéias sombrias e inquietantes ocupam o primeiro plano. É cristão todo o ódio contra o intelecto, o orgulho, a coragem, a liberdade, a libertinagem intelectual; o ódio aos sentidos, à alegria dos sentidos, à alegria em geral, é cristão... 
 Gênesis - Onde o odio à ciência e a misoginia começaram

Será que alguém já compreendeu claramente a célebre história que se encontra no início da Bíblia — a do pavor mortal de Deus ante a ciência? Ninguém, de fato, a compreendeu.Primeiro erro de Deus: para o homem esses animais não representavam diversão — ele buscava dominá-los; não queria ser um “animal”. — Então Deus criou a mulher. Com isso erradicou enfado — e muitas outras coisas também! A mulher foi o segundo erro de Deus. — “A mulher, por natureza, é uma serpente: Eva” — todo padre sabe disso; “da mulher vem todo o mal do mundo” — todo padre sabe disso também. Logo, igualmente cabe a ela a culpa pela ciência... Foi devido à mulher que o homem provou da árvore do conhecimento. — Que sucedeu? O velho Deus foi acometido por um pavor mortal. O próprio homem havia sido seu maior erro; criou para si um rival; a ciência torna os homens divinos — tudo se arruína para padres e deuses quando o homem torna-se científico! — Moral: a ciência é proibida per se; somente ela é proibida. A ciência é o primeiro dos pecados, o germe de todos os pecados, o pecado original. Toda a moral é apenas isto: “Tu não conhecerás” — o resto deduz-se disso. — O pavor de Deus, entretanto, não o impediu de ser astuto. Como se proteger contra a ciência? Por longo tempo esse foi o problema capital. Resposta: expulsando o homem do paraíso! A felicidade e a ociosidade evocam o pensar — e todos pensamentos são maus pensamentos! O homem não deve pensar. — Então o “padre” inventa a angústia, a morte, os perigos mortais do parto, toda a espécie de misérias, a decrepitude e, acima de tudo, a enfermidade — nada senão armas para alimentar a guerra contra a ciência! Os problemas não permitem que o homem pense...Apesar disso — que terrível! — o edifício do conhecimento começa a elevar-se, invadindo os céus, obscurecendo os Deuses — que fazer? — O velho Deus inventa a guerra; separa os povos; faz com que se destruam uns aos outros (— os padres sempre necessitaram de guerras...). Guerra — entre outras coisas, um grande estorvo à ciência! — Inacreditável! 
“Deus”,“espíritos”,“almas” —, como conseqüências “morais” , recompensas, punições, sinais, lições, então torna-se estéril todo o solo para o conhecimento — e com isso perpetrou-se o maior dos crimes contra a humanidade. — Repito que o pecado, essa autoprofanação par excellence, foi inventado para tornar impossível ao homem a ciência, a cultura, toda a elevação e todo o enobrecimento; o padre reina graças à invenção do pecado.
O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo e fracassado; forjou seu ideal a partir da oposição a todos os instintos de preservação da vida saudável; corrompeu até mesmo as faculdades daquelas naturezas intelectualmente mais vigorosas, ensinando que os valores intelectuais elevados são apenas pecados, descaminhos, tentações. O exemplo mais lamentável: o corrompimento de Pascal, o qual acreditava que seu intelecto havia sido destruído pelo pecado original, quando na verdade tinha sido destruído pelo cristianismo!
Todos os métodos, todos os princípios do espírito científico de hoje foram alvo, por milhares de anos, do mais profundo desprezo; caso um homem se interessasse por eles era excluído da sociedade das pessoas “decentes” — passava por “inimigo de Deus” , por zombador da verdade, por “possesso”. Enquanto homem da ciência, pertencia à Chandala (a casta mais baixa no sistema hindu.) ... Tivemos contra nós toda a patética estupidez da humanidade.
O idealista, assim como o eclesiástico, carrega todos os grandes conceitos em sua mão (— e não apenas em sua mão!); os lança com um benevolente desprezo contra o “entendimento”, os “sentidos”, a “honra”, o “bem viver”, a “ciência”; vê tais coisas abaixo de si, como forças perniciosas e sedutoras, sobre as quais “o espírito” plana como a coisa pura em si — como se a humildade, a castidade, a pobreza, em uma palavra, a santidade, não tivessem causado muito mais dano à vida que quaisquer outros horrores e vícios...

Religiao como fuga da realidade

No cristianismo, nem a moral nem a religião têm qualquer ponto de contado com a realidade. São oferecidas causas puramente imaginárias (“Deus”,“alma”,“eu”,“espírito”,“livre arbítrio” — ou mesmo o “não-livre”) e efeitos puramente imaginários (“pecado”,“salvação”,“graça”,“punição”,“remissão dos pecados”). Um intercurso entre seres imaginários (“Deus”,“espíritos”,“almas”); uma história naturalimaginária (antropocêntrica; uma negação total do conceito de causas naturais); uma psicologia imaginária (mal-entendidos sobre si, interpretações equivocadas de sentimentos gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, os estados do nervus sympathicus com a ajuda da linguagem simbólica da idiossincrasia moral-religiosa — “arrependimento” , “peso na consciência”,“tentação do demônio”,“apresença de Deus”); uma teleologia imaginária (o “reino de Deus”,“o juízo final”, a “vida eterna”). — Esse mundo puramente fictício, com muita desvantagem, se distingue do mundo dos sonhos; o último ao menos reflete a realidade, enquanto aquele falsifica, desvaloriza e nega a realidade. Após o conceito de “natureza” ter sido usado como oposto ao conceito de “Deus”, a palavra “natural” forçosamente tomou o significado de “abominável” — todo esse mundo fictício tem sua origem no ódio contra o natural (— a realidade! —), é evidência de um profundo mal-estar com a efetividade... Isso explica tudo. Quem tem motivos para fugir da realidade? Quem sofre com ela. Mas sofrer com a realidade significa uma existência malograda... A preponderância do sofrimento sobre o prazer é a causa dessa moral e religião fictícias: mas tal preponderância, no entanto, também fornece a fórmula para a décadence...
No mundo de idéias do cristão não há qualquer coisa que sequer toque a realidade: ao contrário, reconhece-se um ódio instintivo contra a realidade como força motivadora, como único poder de motivação no fundo do cristianismo.
Uma religião como o cristianismo, que não possui um único ponto de contato com a realidade, que se esfacela no momento em que a realidade impõe seus direitos, inevitavelmente será a inimiga mortal da “sabedoria deste mundo”, ou seja, da ciência — nomeará bom tudo que serve para envenenar, caluniar e depreciar toda disciplina intelectual, toda lucidez e retidão em matéria de consciência intelectual, toda frieza nobre e liberdade de espírito.
A força e a liberdade que surgem do vigor e da plenitude intelectual se manifestam através do ceticismo.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici


Este livro é uma pesquisa sobre a condiçao das mulheres na "transiçao" do feudalismo para o capitalismo. Repensa a analise da acumulaçao primitiva de "O Capital", vol.1, de Karl Marx e também "A Teoria do Corpo", de Michel Foucault, sob o ponto de vista feminino.
O titulo vem de dois personagens da peça shakesperiana "A Tempestade": O Calibã representa o rebelde anticolonial, simbolo do proletariado, especificamente o corpo do proletariado como terreno e instrumento de resistência da logica capitalista.
In The Tempest the conspiracy ends ignominiously, with the European proletarians demonstrating to be nothing better than petty thieves and drunkards, and with Caliban begging forgiveness from his colonial master.
A Bruxa (Sycorax, mae de Calibã) é a concretizaçao de um mundo de assuntos femininos que o capitalismo tinha que destruir: a herética, a curandeira, a esposa desobediente, as mulheres que queriam morar sozinhas, etc.

"Whereas Marx examines primitive accumulation from the viewpoint of the waged male proletariat and the development of commodity production, I examine it from the viewpoint of the changes it introduced in the social position of women and the production of labor-power. Thus, my description of primitive accumulation includes a set of historical phenomena that are absent in Marx, and yet have been extremely important for capitalist accumulation. They include  the development of a new sexual division of labor subjugating women's labor and women's reproductive function to the reproduction of the work-force; the construction of a new patriarchal order, based upon the exclusion of women from waged work and their subordination to men; the mechanization of the proletarian body and its transformation, in the case of women, into a machine for the production of new workers. Most important, I have placed at the center of my analysis of primitive accumulation the witch-hunts of the 16th and 17th centuries, arguing that the persecution of the witches, in Europe as in the New World, was as important as colonization and the expropriation of the European peasantry from its land were for the development of capitalism".
I should add that Marx could never have presumed that capitalism paves the way to human liberation had he looked at its history from the viewpoint of women. For this history shows that, even when men achieved a certain degree of formal freedom, women were always treated as socially inferior beings and were exploited in ways similar to slavery. “Women," then, in the context of this volume, signifies not just a hidden history that needs to be made visible; but a particular form of exploitation and, therefore, a unique perspective from which to reconsider the history of capitalist relations.
A caça às bruxas, sob um regime patriarcal opressor, foi uma guerra contra as mulheres para denegri-las, demoniza-las, domestica-las e destruir seu poder social, visava também destruir o controle que as mulheres exerciam sobre seu corpo, sua sexualidade e sua funçao reprodutiva. A mulher foi confinada no lar, sem direito a um salario. Mesmo as que trabalhavam, o salario ia para os maridos. Elas perderam toda autonomia, principalmente financeira, foram retiradas dos espaços publicos, proibidas de terem acesso à educaçao, à vida politica e religiosa, foram confinadas apenas para a reproduçao, as ricas para gerarem herdeiros e as pobres para gerarem mao-de-obra barata. Elas ficaram dependentes do homem para tudo
The separation of production from reproduction created a class of proletarian women who were as dispossessed as men but, unlike their male relatives, in a society that was becoming increasingly monetarized, had almost no access to wages, thus being forced into a condition of chronic poverty, economic dependence, and invisibility as workers.
O poder da Igreja no argumento de autoridade, como ja citei aqui, que em nome de deus cometeu muitas atrocidades, combatendo todo tipo de cultura e religiao que eram diferentes do "cristianismo". As mulheres que nao se adequavam ao modelo imposto eram acusadas de bruxas, assim como os movimentos hereticos e do milenarismo (resistência anti-feudal do XII e XIII sécs).
A igreja através da santa inquisiçao que se auto-intitulou como a justiça de deus na terra, cometeu o maior feminicidio da historia da humanidade, participou ativamente da colonizaçao e converteu à força, por meios da violência, tortura e mortes, indios e escravos. Além do feminicidio, foi conivente também com o massacre de 2/3 dos nativos da América e a escravidao dos africanos e nativos.
Para o avanço capitalista, toda forma de comunalismo tinha que ser destruida, como os anabatistas que seguiam os passos dos primeiros cristaos de dividirem tudo entre eles em partes iguais, ou os indigenas ou tribos africanas que faziam o mesmo. O comunalismo deu lugar ao individualismo.
A igreja também politiza a sexualidade e regula o comportamento sexual:
The Church attempted to impose a true sexual catechism, minutely prescribing the positions permitted during intercourse (actually only one was allowed), the days on which sex could be practiced, with whom it was permissible, and with whom forbidden.
O casamento torna-se um sacramento no séc. XII, nenhum poder na terra pode dissolver o matrimonio. A igreja intensifica o ataque à sodomia.
No catolicismo as mulheres nao eram ninguém, enquanto nas seitas heréticas elas administravam sacramentos, pregavam, batizavam e dividiam o teto com um homem sem casar.
As beguines, era um grupo de mulheres que moravam juntas, longe do controle dos homens e das regras monasticas, um exemplo de mulheres livres que existiu.
Nos séculos XIV e XV o estupro é descriminalizado, se uma mulher é solteira, viuva, doméstica ou esta sozinha  na rua, o homem se vê no direito de estupra-la e nada acontece judicialmente, pois ela que esta errada em nao ter um homem ou de ter que andar sozinha. Uma vez estuprada, perde a dignidade, nao vai arrumar um casamento e so resta a prostituiçao. Começa entao o culto à virgindade, à castidade, à pureza, etc. Dai surge o argumento de mulher para casar e mulher para se divertir.
Durante a colonizaçao, a primeira geraçao de mestiços nascida na América foi concebida através do estupro de mullheres nativas e escravas africanas.
Ha a institucionalizaçao da prostituiçao, abertura de bordeis municipais com o aval da igreja que justifica que estes lugares sao necessarios para evitar a sodomia e a orgia dos hereges. Veja a diferença que a sexualidade do homem nao sofre nenhuma alteraçao, ele tem permissao para estuprar, visitar prostitutas e casar com uma mulher casta, enquanto as mulheres sao proibidas de qualquer forma de prazer, a esposa faz sexo pra procriaçao e a prostituta como meio de sobrevivência, ambas sob o dominio do patriarcado que decidem o que fazer com o corpo delas.
Foi proibido o uso de plantas contraceptivas, a parteira foi substituida pelo médico homem, a gestaçao e o nascimento passam a ser controlados pelo estado.

Cartesianismo: O corpo como maquina ou a disciplina do corpo

Descartes e Hobbes. Filosofia mecânica, o corpo é comparado a uma maquina com intuito de maximizar sua utilidade no trabalho, a maquina tornou-se modelo do novo comportamento social.
Descartes and Hobbes express two different projects with respect to corporeal reality. In Descartes, the reduction of the body to mechanical matter allows for the development of mechanisms of self-management that make the body the subject of the will.
In Hobbes, by contrast, the mechanization of the body justifies the total submission of the individual to the power of the state. In both, however, the outcome is a redefinition of bodily attributes that makes the body, ideally, at least, suited for the regularity and automatism demanded by the capitalist work-discipline.
Foucault demonstrou que a mecanizaçao do corpo envolve a repressao dos desejos, emoçoes ou outras formas de comportamentos que deveriam ser erradicadas. O produto desta alienaçao do corpo é o desenvolvimento da identidade individual, o conflito da mente e do corpo (alter ego) representa o nascimento do individual na sociedade capitalista, moldado pela disciplina laboral.

Apocalipse, de Emil Cioran

Em tempos sombrios, recorro aos niilistas que perderam completamente a fé na humanidade. Eis aqui o texto Apocalipse, de Emil Cioran, do livro "Nos cumes do desespero"

Como eu adoraria que todas as pessoas ocupadas ou encarregadas de missões, homens e mulheres, jovens e velhos, sérios e levianos, felizes e tristes, abandonassem um belo dia suas necessidades, renunciando a todo dever ou obrigação, para sair na rua e dar fim a toda atividade! Estas pessoas estúpidas, que trabalham sem razão e se orgulham de contribuir para o bem da humanidade, labutando pelas gerações futuras sob o impulso da mais sinistra das ilusões, se vingariam então de toda a mediocridade de uma vida nula e estéril, deste absurdo desperdício de energia tão contrário a todo avanço espiritual. Como eu degustaria o instante em que mais ninguém se deixaria enganar por um ideal ou tentar por uma das satisfações que oferece a vida, em que toda resignação seria ilusória, em que as estruturas de uma vida normal explodiriam definitivamente! Todos aqueles que sofrem em silêncio, sem ousar exprimir sua amargura pelo menor suspiro, gritariam então num coro sinistro, cujos clamores terríveis fariam tremer a terra inteira. Que possam as águas romper e as montanhas abalar-se horrivelmente, as árvores exibir suas raízes como uma hedionda e eterna advertência, os pássaros crocitar como os corvos, os animais assustados vagar até o esgotamento. Que todos os ideais sejam declarados nulos; as crenças - ninharias; a arte - uma mentira, e a filosofia - uma gozação. Que tudo seja erupção e colapso. Que vastos pedaços arrancados do solo voem e sejam reduzidos a poeira; que as plantas componham no firmamento arabescos bizarros, contorções grotescas, figuras mutiladas e assustadoras. Possam os turbilhões de chamas elevar-se num ímpeto selvagem e invadir o mundo inteiro, para que mesmo o menor dos seres vivos saiba que o fim está próximo. Que toda forma se torne informe e que o caos engula numa vertigem universal tudo o que, neste mundo, possua estrutura e consistência. Que tudo seja uma demente colisão - estertor colossal, terror e explosão, seguidos de um silêncio eterno e de um esquecimento definitivo. Que nestes momentos finais os homens vivam numa tal temperatura que tudo quanto a humanidade nunca sentira em matéria de pesar, aspiração, amor, ódio e desespero estoure neles numa devastadora explosão. De tal insurreição, na qual ninguém mais encontraria sentido para a mediocridade do dever, em que a existência se desintegraria sob a pressão de suas contradições internas, o que restaria afora o triunfo do Nada e a apoteose do não-ser?
Vaidade da compaixão

A compaixão é uma marca de superficialidade: os destinos esgotados e as desventuras irremediáveis nos conduzem seja ao uivo, seja à inércia permanente. A piedade e a comiseração são tão ineficazes quanto insultantes. Além disso, como simpatizar com o infortúnio de outro quando nós mesmos sofremos infinitamente? A compaixão não cria nenhuma obrigação, daí sua frequência. Ninguém morre aqui na Terra de sofrimento pelo outro. Quanto àquele que fingiu morrer por nós, ele não morreu: ele foi colocado à morte.


Medida do sofrimento

Existem pessoas que são condenadas a saborear somente o veneno das coisas, para quem toda a surpresa é dolorosa e toda a experiência uma nova tortura.
Este sofrimento, será dito, tem razões subjetivas e procede de uma constituição particular: mas existe algum critério objetivo para medir o sofrimento? Quem então poderia certificar que meu vizinho sofre mais do que eu mesmo, ou que Cristo tenha sofrido mais do que quem quer que seja.
O sofrimento não é apreciável objetivamente, porque ele não se limita ao exterior ou a um problema preciso do organismo, antes, ele surge de acordo com a forma pela qual a consciência o reflete e o sente. Deste ponto de vista, toda a hierarquização torna-se impossível.

Eu e o mundo

O fato de que eu existo prova que o mundo não tem sentido. Que sentido eu poderia encontrar, com efeito, nos suplícios de um homem infinitamente atormentado e infeliz, para quem tudo se reduz em última instância ao nada e o sofrimento faz a lei deste mundo? 

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Eu, etiqueta

Neste mundo de ostentaçao e consumo, quem é você na fila do pao sem uma etiqueta?




EU, ETIQUETA
Carlos Drummond de Andrade

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei,
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda,
ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser

Eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou — vê lá — anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

domingo, 20 de maio de 2018

Disciplina de Pensamento Critico: Alguns elementos historicos (Parte 2)

Dando continuidade ao resumo da disciplina. Para quem perdeu a parte um, é so vir por aqui

Alguns elementos historicos do pensamento critico

O começo do pensamento critico grego, os fisicos sao os primeiros filosofos.
Filosofar é distanciar dos valores legados pela tradiçao, nao necessariamente recusa-los, mas critica-los e argumentar sobre sua legitimidade, coloca-os à prova e ao tribunal da razao.
Os fisicos estudam a natureza, procuram os elementos fundamentais (agua, fogo, ar, terra). 
Tales de Mileto é um dos primeiros filosofos/fisicos que se tem conhecimento. Ele soube separar discursos da mitologia e privilegiar a visao naturalista caracterizada pela observaçao e demonstraçao. Tenta compreender o mundo e a natureza (cosmologia). É mais conhecido devido ao "Teorema de Tales".
Os fisicos nao se interessam por politica e respeitam as autoridades de onde vivem.
Mais tarde, Xenófanes de Cólofon entendeu que o homem inventou os deuses e os mitos, o que questiona o poder da aristocracia, vista como "a escolhida" para exercer o poder e a dominaçao.

Sofistas (sofi=sabedoria)
Sec. V a.C., Atenas torna-se democratica, nova geraçao de filosofos que abordavam diretamente as questoes politicas, pois eram professores de retorica (= arte de falar corretamente, tomar decisoes sabias). 
Declinio dos sofistas: Com o tempo, a retorica foi usada para manipulaçao, demagogia, corrupçao, sofismas (erros voluntarios), divertimento do publico, jogo de emoçoes.

Socrates e Platao

Socrates, na Agora, critica os sofistas por meio da dialética (debates para demonstrar e refutar / argumentaçao e raciocinio). É acusado e morto.

Platao é discipulo de Socrates, achava que o povo era levado pelos argumentos dos sofistas sem refletir (assembleia de ignorantes) e que os filosofos deveriam decidir no lugar deles nas assembleias (monarquia filosofica).

Aristoteles

Tratado da retorica /Refutaçao dos sofistas: teses para tentar salvar a democracia.
Reticente à ideia que os filosofos podem governar. Prudência 


A critica indireta dos dogmas
Dogma: afirmaçao considerada fundamental, incontestavel e intangivel formulada por uma autoridade politica, filosofica ou religiosa.

Idade média
O Nome da Rosa, de Umberto Eco - a redescoberta da comédia de Aristoteles poderia destruir a base do cristianismo

Sola Scriptura (somente as escrituras) x Liberum examen: rejeita o argumento de autoridade em materia do saber e da liberdade de julgamento.

Séc XVI- Protestantismo contesta o poder da Igreja catolica e do Papa em interpretar a biblia, denuncia a corrupçao e o enriquecimento ilicito do clero que pretendem ser mediadores entre Deus e os homens.
Lutero traduziu a biblia para que esta fosse acessivel na lingua do povo. O fiel poderia examinar as escrituras sem deixar-se dominar pela a opiniao da Igreja.
Risco de livre interpretaçao: Igreja catolica condena o pensamento protestante de interpretaçao individual

Kant e o século das luzes

Séc XVIII - Kant afirma a importância do uso da razao critica individual a fim de se libertar da tradiçao e do estado de tutela no qual nos encontramos.
Estado de tutela: Quando nao fazemos uso da razao critica
Estado de minoridade: estado em que se falta coragem e de resoluçao.
O individuo liberto de dogmas e argumentos de autoridade torna-se mestre da propria razao e pensa por si mesmo.

Ideologos (filosofos e pensadores do meio acadêmico na França, no fim do séc XVIII): Podemos examinar livremente nao apenas os textos sagrados, mas todos os problemas que se apresentam (extensao da noçao), sem dogmas. O individuo passa a refletir sobre os problemas, independentemente do que esteja nas escrituras, pode inclusive ser contra e refutar.

Questao da laicidade

Contra um poder politico baseado em uma religiao oficial. O exercicio do pensamento critico é incompativel com um estado teologico que é baseado numa autoridade dogmatica.
Estado laico: Caracteriza-se pela ausencia de religiao oficial e neutralidade absoluta, cada um pode se orientar como quiser. O estado laico nao privilegia e nem discrimina nenhum individuo por causa de suas crenças e trabalha em prol de todos. Garante a liberdade de consciência, diferente do estado teocratico.

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