sábado, 27 de maio de 2017

Lendo mulher japonesa: Fumiko Enchi

Este é o meu primeiro contato com um livro escrito por uma mulher japonesa. Já li alguns homens: Murakami, KawabataTakuboku e Soseki.
Gosto bastante do cinema japonês, ja assisti à vários filmes do Akira Kurosawa, Hirokazu Kore-eda, Kenji Misoguchi, Yasujiro Ozu, Takeshi Kitano, Hayao Miyazaki, entre outros.
Assisti a filmes dirigidos por mulheres japonesas também, mas ainda nao coloquei aqui no "Mulheres na Direçao". No inverno volto a postar sobre filmes, agora que é primavera-verao e eu preciso sair um pouco.
Titulo: Masque de Femme (Máscara de Mulher)
Autora: Fumiko Enchi
Ano de lançamento: 1958
145 paginas.

O titulo "Máscara de mulher" refere-se às máscaras femininas do Teatro . Como meu conhecimento é bem pobre em cultura japonesa e oriental, tive que pesquisar um pouco sobre esse tipo de teatro, pois o que tinha visto até entao, foi uma cena no filme "Dolls", do Takeshi Kitano (filme lindo!). Vamos ao resumo do básico:
  • significa talento/ habilidade
  • O teatro tradicional japonês foi reconhecido pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial.
  • Envolve musica, dança e dramatizaçao.
  • Todos atores sao homens. O que diferencia os personagens masculinos dos femininos sao as mascaras. Elas sao divididas em 5 categorias: homens, mulheres, idosos (dos dois sexos), demônios e espiritos. Dentre estas categorias ha as subcategorias, por exemplo: homem jovem, mulher madura, mulher louca, etc. Somando aproximadamente 250 máscaras.
  • A máscara de espirito vingador feminino tem chifre, o masculino nao.
Par Vassil — Travail personnel, Domaine public


A Profa de Artes Cênicas da USP, Darci Kusano, escreveu este artigo sobre o Teatro tradicional japonês e ela cita um escritor que definiu o teatro Nô da seguinte forma:

"O escritor Yukio Mishima radicaliza e considera o nô uma arte necrófila, um teatro ímpar no mundo, pois começa quando tudo já terminou. Na primeira parte da peça, disfarçado de pessoa comum, o espírito retorna à terra e aparece diante de um ser humano. Já na segunda parte, revela sua verdadeira identidade, geralmente através de uma dança, reencenando o sentimento que mais o marcou em vida: a derrota na batalha, o ódio, o ciúme, o amor não correspondido, a dor de um filho morto e assim, purgar as suas emoções mundanas e alcançar a iluminação."
Esta definição me chamou a atenção, pois o livro segue a mesma lógica do teatro. Começa com este assunto de possessão de espiritos e em seguida todos os outros assuntos que sublinhei.

O livro é dividido em três capítulos, cada um deles representa um nome de uma máscara feminina, sao elas: 

  • Ryō no Onna (A possuida), é  o rosto de uma mulher angustiada e que espera em vao o marido que nunca retornará.
  • Masugami (A dos cabelos longos), representa a princesa louca, errante, no qual seu irmão é vitima do destino. Ter o cabelo longo e bangunçado na poesia japonesa, significa ter o espirito perturbado.
  • Fukai (A poço profundo), é a mascara para o papel de mãe. Seus olhos sao profundos dando a impressao de uma mulher perdida em seus pensamentos.

As principais personagens femininas do livro que fazem um paralelo com as três máscaras citadas sao:

  • Mieko Toganoo, viúva, poeta renomada, diretora de uma revista literária, tem interesse em possessao e espiritismo na literatura classica japonesa, em particular no romance de Genji. Seu filho Akio morreu numa avalanche, ao tentar escalar o Monte Fuji.
  • Yasuko é nora de Mieko e viúva de Akio, ela tem um relacionamento ambíguo com a sogra (tanto intelectual quanto sexual).
  • Harume é irma gêmea de Akio, logo é filha de Mieko. É linda, mas tem problemas mentais.
Os dois personagens masculinos, Mikame e Ibuki, estao apaixonados por Yasuko e ela vai aproveitar disso para um proposito bem inusitado (para nao dizer assustador, horripilante).

Outro fato que me chamou a atençao, foi a forma que a autora descreve a misoginia presente no Budismo, isso é bem claro nas religiões monoteistas, mas nunca tinha prestado atenção a este detalhe nas religiões orientais.
Por exemplo, tem uma parte que fala de um personagem feminino, a Dama da Sexta Avenida, do romance de Genji. Ela é ciumenta e obsessiva, mas as pessoas a viam pelo ponto de vista budista, o "arquétipo do karma feminino nefasto".
Tem outra parte que fala de possessão e poderes xamânicos femininos que foram reprimidos e quase extintos por afrontarem os homens. Entao é citado um termo budista "o karma feminino é uma distraçao, uma loucura passageira, portanto o mal".
Tem uma outra passagem interessante e bem feminista sobre isso:
"Pela questão da paternidade, por exemplo: para ter certeza que o filho  é seu, o homem, durante séculos, acumulou esforços admiraveis, instituindo o crime passional, inventando o cinto de castidade... Mas eles nunca conseguiram desmantelar um segredo de uma mulher. Se Jesus e Buda odiavam as mulheres a ponto de sadismo, era para obrigar a rendição de um adversário contra quem o combate ja estava perdido antecipadamente."
Além do teatro , tem também comparações com a maior obra literária japonesa do século XI, considerada também como o primeiro romance psicológico, Genji monogatari. A autora que traduziu esta obra para o japonês moderno.

Gostei bastante da leitura, super indico. É meio perturbador, porque máscaras ao mesmo tempo que atrai a atenção, também causa um certo desconforto. Tive que fazer pesquisas antes de avançar na leitura, mas valeu a pena. Aprendi um pouco mais sobre uma cultura.

Vou deixar alguns links sobre o teatro , caso alguém tenha interesse (em inglês e francês).

domingo, 14 de maio de 2017

Livro+filme: Breakfast at Tiffany's

Este post é para a discussao do Clube dos Classicos Vivos, ou seja CONTÉM MUITOS SPOILERS!!!!
O livro escolhido pelo grupo este bimestre foi Breakfast at Tiffany's (Bonequinha de Luxo), do Truman Capote. É uma leitura rapida e prazerosa. Porém, o filme e o livro sao duas coisas distintas, se você nao quiser passar raiva, nunca compare um com o outro. O proprio Capote odiou o filme. Eu gostei dos dois, mas ainda prefiro mil vezes o livro. O filme é romântico, com uma atriz fofa e um final feliz, coisa que nao acontece no livro.
A historia é narrada por um escritor que mora no mesmo prédio que Holly Golightly, a protagonista, na década de 40, durante a 2a Guerra Mundial.

Infância e adolescência

Holly Golightly é o nome que ela adotou ao fugir do Texas rumo a Nova Iorque. Seu verdadeiro nome é Lulamae Barnes, orfa e a unica pessoa que ela tem profundo apego é com seu irmao Fred.
Lulamae e Fred fogem da casa. Sao surpreendidos pelas filhas do Doc Golightly roubando leite e ovos. Doc é um homem viuvo, pai de quatro filhos e se casa com Lulamae quando esta tem apenas 14 anos, ela passa a usar seu sobrenome. 
Em pouco tempo ela foge, deixando seu irmao com Doc. Em seguida, Fred entra para o exército e vai para Guerra.
Esta infância dificil, fez com que ela desenvolvesse um "complexo paterno" e so se interessava por homens mais velhos (sugar daddies), de 42 anos para cima. Nao era por amor, era por interesse mesmo.

Nova Iorque

Quando o narrador (cujo o nome nao é identificado como é no filme) chega de mudança no prédio, Holly tem 19 anos, ele faz uma descriçao dela que nao tem nada a ver com Audrey Hepburn que parece uma princesinha, girly e femininissima. Pelo contrario, na aparência ela é uma mistura de Miley Cirus, com cara Delevigne, Kristen Stewart e o personagem de Chloe Sevigny no filme Kids. Segundo a descriçao, ela tinha o cabelo loiro-albino e amarelo, joaozinho (boy's hair), nariz empinado, boca larga. Sem os oculos escuros, ele percebeu que ela tinha olhos meio estrabicos, ora verdes, ora azuis, ora marrons e era magrela. 
"She was still on the stairs, now she reached the landing, and the ragbag colors of her boy's hair, tawny streaks, strands of albino-blond and yellow, caught the hall light. It was a warm evening, nearly summer, and she wore a slim cool black dress, black sandals, a pearl choker. For all her chic thinness, she had an almost breakfast-cereal air of health, a soap and lemon cleanness, a rough pink darkening in the cheeks." 


Ja no comportamento, é uma mistura de Amy Winehouse, com Rihanna, Lindsay Lohan e Britney Spears na época que raspou a cabeça. Vai para as baladas, volta ao amanhecer do dia, fuma cigarro e maconha, bebe, organiza festas no apartamento, incomoda os vizinhos, é noticia de tabloides, cleptomaniaca, trabalha para mafia, engravidou, abortou, foi presa, etc. 
Como as meninas da foto acima, ela também é sexually fluid. Em varias ocasioes ela fala que gosta de lésbicas, quer arrumar uma room-mate lésbica e que ela mesma se considera um pouco lésbica, mas isso nunca foi problema para arrumar homens.

Quando foi presa estava vestida como uma tomboy

Os relacionamentos de amizade mais sinceros que ela tem sao com homens gays, como é o caso do narrador e do dono do bar, Joe Bell que a ajuda a fugir do pais.
O narrador escreve em seu livro a historia de duas moças que moram juntas e ela diz:
Também diz que vai apoia-lo se ele "sair do armario" porque acredita que o amor deve ser permitido independente de gênero da pessoa amada:

Ela passa a dividir o apartamento com uma modelo, Mag Wildwood que se veste com roupas extravagantes e gagueja. Mag namora com um diplomata brasileiro, Jose Yberra-Jaegar. Ela se considera conservadora e nao gosta da franqueza de Holly quando fala de sexo.
Holly namora com Rusty Trawler, um herdeiro milionario, pro-Nazi que ja tinha se divorciado três vezes e estavam juntos apenas pela midia. Em seguida os casais trocam de par, Mag casa com Rusty e Holly passa a viver com o brasileiro e pretende morar no Brasil, mas o relacionamento termina assim que ela é presa por envolvimento com a mafia e uso de narcoticos. Ele quer manter integra sua reputaçao e ela nao serve para ser a esposa do possivel futuro presidente do Brasil.
Ao sair da prisao, como ela ja tinha uma passagem comprada para o Brasil, ela foge para la, nao sem antes pedir uma lista dos 50 homens brasileiros mais ricos. E a moça nao toma jeito nao. Como nao deu certo no Brasil, ela vai para Argentina e arruma um homem rico, porém casado e pai de 7 filhos.
Apesar de Holly ser vida louca, é impossivel nao ter empatia por ela. É uma pessoa solitaria, mesmo estando rodeada de um monte de gente falsa (rats). Quando ela foi presa, todo mundo se afastou, pois nao queriam que seus nomes fossem ligados ao dela.
É uma pessoa que sempre busca a liberdade, ela nao gosta de zoologico porque nao gosta de ver bicho enjaulado. Ela deu uma gaiola de presente para o escritor, mas disse para ele jamais colocar um passaro la dentro.
Também se considera selvagem e impossivel de ser domada. Como ela descreveu seu ex-marido que era veterinario e gostava de cuidar de bichos selvagens, mas segundo ela "nao é bom amar coisas selvagens, quanto mais você se dedica, mais fortes elas ficam e entao correm para floresta ou alçam voos cada vez mais altos. Se você ama uma coisa selvagem, acabara olhando para o céu".

Ela tem um sentimento de nao pertencer a lugar nenhum. Esta sempre em busca de um lugar em que se sente segura e que nada de mal pode acontecer, um lugar como dentro da Tiffany's por exemplo. A identidade/nome é algo importante para ela, tanto que seu gato nao tem nome.
"If I could find a real-life place that made me feel like Tiffany's, then I'd buy some furniture and give the cat a name. I've thought maybe after the war, Fred and I"
"Anyway, home is where you feel at home. I'm still looking" 
Ela ama Nova Iorque, mas nao se sente bem acolhida ou fazendo parte da cidade. Ela acha que vai voltar com os 9 filhos brasileiros para mostrar-lhes as luzes e o rio.

Ela é uma garota sonhadora, uma pessoa agradavel, mas é completamente perdida, sem senso de moral e ética, é uma menina vinda do interior que tenta sobreviver numa cidade grande, tem ambiçoes e toma atitudes sem medir as consequencias. Sente-se totalmente desamparada apos a morte de seu irmao Fred. Algumas vezes é ingênua e as pessoas aproveitam disso, outras vezes é ela a manipuladora que aproveita das pessoas também.
Truman Capote escreve muito bem e nos envolve nesta narrativa.

O filme


O filme foi feito para agradar as familias conservadoras. Em nenhum momento é mencionada a sexualidade dos personagens, criaram um par romantico entre o escritor e a Holly. Alguns personagens do livro nem aparecem no filme.
No livro tem o fotografo japonês, Yunioshi que é um profissional super respeitado. No filme ele é muito caricato beirando ao ridiculo, sem falar que o ator é branco de olhos claros fingindo ser japonês.
japonês fake
O ator que fez o papel do brasileiro é espanhol e nem é tao moreno quanto o descrito no livro, mas pelo menos o nome dele no filme, Jose Silva Pereira, convence mais que o nome no livro, Jose Yberra-Jaegar.
O que salva este filme é a Audrey Hepburn, ela tem classe, charme, é impossivel nao gostar dela.  O George Peppard é bem cute, mas faz o papel do homem que quer salvar a mulher, o bonitinho bem intencionado que quer coloca-la na gaiola (literalmente!).
Também tem a musica "Moon River" na trilha sonora que adoro.

É isso!

sábado, 1 de abril de 2017

Mulher na musica: Madonna

Sou suspeita para falar dela, cresci ouvindo-a. Falta-me completar minha coleçao de CDs com os três ultimos lançados.
Queria escrever textao sobre ela, mas acho melhor deixa-la dizer tudo o que ela tem a dizer. Quem fez o melhor discurso do ano? Pelo menos uma vez por mês preciso assistir a este video para me dar um gas na vida.

Quem foi a melhor convidada do Carpool Karaoke? Com quase 60 anos e cheia de energia, twerkando, sendo flexivel e mostrando que nao existe idade para express yourself. Muito diva!!


Este video experimental "Her-Story" com um monte de mulheres Orlando style (androginas). Lindooo!!!!


Vou fazer um top 15 de musicas que adoro, nao é por ordem de preferência, pois prefiro todas igualmente:

1) O clipe censurado de American Life
2) What It Feels Like For A Girl
3) Frozen
4) Like a Prayer
5) Rain
6) Vogue
7) Justify my love
8) Music
9) Girl Gone Wild
10) Ghosttown
12) Don't tell me
13) Live to tell
14) I'll remember

15) Take a bow
That's it!!!

sábado, 11 de março de 2017

Transtornos alimentares: Alejandra Pizarnik e outras escritoras

Dando continuidade ao Dossiê Pizarnik, hoje vou falar de um assunto que até ouvimos en passant, mas nao vemos muitas discussoes aprofundadas a respeito, mesmo sendo um problema muito recorrente e que atinge principalmente às mulheres.



Os transtornos alimentares, segundo a Medicina, sao varios e classificados no CID-10, de F50 a F50.9:
CID 10 - F50 Transtornos da alimentação
CID 10 - F50.0 Anorexia nervosa
CID 10 - F50.1 Anorexia nervosa atípica
CID 10 - F50.2 Bulimia nervosa
CID 10 - F50.3 Bulimia nervosa atípica
CID 10 - F50.4 Hiperfagia associada a outros distúrbios psicológicos
CID 10 - F50.5 Vômitos associados a outros distúrbios psicológicos
CID 10 - F50.8 Outros transtornos da alimentação
CID 10 - F50.9 Transtorno de alimentação não especificado

Lendo diarios e cartas de algumas escritoras como o da Alejandra Pizarnik, Clarice Lispector e Virginia Woolf, notei que cada uma tinha alguns desses transtornos.

A Clarice Lispector queria sempre estar magra por vaidade e fazia regimes absurdos. No livro Correspondências, ela escreveu nas cartas para o filho Paulo Gurgel Valente:

"Estou fazendo um regime sério para emagrecer e se Deus quiser voltarei ao peso antigo". (Carta sem data) 
"Estou fazendo regime pra emagrecer: em sete dias perdi cinco quilos, e no oitavo estava fraca, comi de tudo, e resultado ganhei dois quilos. Eu mesma não entendo". (maio de 1969)
Ja a Virginia ficava muito nervosa/ansiosa durante o processo de publicaçao de um livro que simplesmente nao conseguia comer, nao era nem por vaidade, é porque a comida nao descia mesmo. Chegou ao ponto de força-la, seguravam-na e enfiavam a comida guela abaixo. Além disso, Leonard e os médicos criaram para ela horarios rigidos a serem respeitados: ela tomava café da manha, de tal hora a tal hora ela escrevia, depois lia/escrevia cartas, almoçava, dava um passeio, lia, jantava.

Ha também o caso da mae da Carrie Brownstein, ela era criança e nao entendia direito porque sua mae estava internada numa clinica pelo fato de nao querer comer, pois tinha anorexia.

A primeira vez que ouvi falar de anorexia, era ainda criança, apos a morte da Karen Carpenter, do "The Carpenters" na década de 80. So que as pessoas falam desses transtornos com desdém, como se nao fosse um transtorno, fosse "frescura", vontade de chamar atençao, etc. A gente fica meio sem saber o que se passa na cabeça de alguém com esse problema.
Porém, lendo o diario da Alejandra que tinha bulimia, pela primeira vez pude perceber o sofrimento de alguém nesta situaçao. Na adolescência, ela ja era obcecada com o peso e passou a ingerir anfetaminas para emagrecer. Ainda misturava isso com outros remédios para outros transtornos mentais que ela tinha, com alcool e cigarro. Vou deixar uns fragmentos, no idioma original, pq nao tenho tempo de traduzir, é de doer no coraçao:
(Tres de la mañana.) Vértigos. Hace una semana que no ingiero alimentos. Hace una semana que la comida me provoca espantosas imágenes.

"mi alimentación disminuye, comienzo a amar la sensación de hambre no saciado. Es más: quiero que el hambre acentúe mi indiferencia, que me envuelva en una nebulosa de olvido. Porque comer normalmente, en mí, es una humillación, es aferrarme a la fuerza a una vida que me rechaza. Y su rechazo es demasiado evidente". 
"¿Cómo llegar a la verdad de mi cuerpo? Estos días tengo hambre, un hambre histérica. Como quien se suicida, así yo como".
 "He comido mucho. Vorazmente. Y leyendo revistas femeninas, folletines idiotas. He comido como quien se masturba".
"Me acabo de pesar. Es una gran desgracia".
"Engordé mucho. Ya no debo angustiarme. No hay remedio. Es un círculo vicioso. Para no comer necesito estar contenta. No puedo estar contenta si estoy gorda". 
"Hoy me pesé. Es el fin. Y he pasado hambre…" 
" El 11 me voy al Uruguay. Si no adelgazo no iré a ver a Clara ni a Orestes. Qué responsabilidad la mía tener que ofrecerle a Clara un rostro que coincida lo más posible con mis retratos, con los cuales poco o casi nada tengo en común". 
"Programa para este año: estudiar, escribir y adelgazar definitivamente, es decir, despojarme de la menor sombra de obesidad". 
"No obstante, trataré de comer lo menos posible: estoy muy asustada por las complicaciones —la operación y demás— que ha traído mi alimentación destructora de estos últimos meses". 
"Estoy comiendo mucho. En una semana he perdido mi esbeltez, que tanta paciencia y dinero y sufrimientos me costó. Comienzo a comer sin hambre y entro en una oleada de automatización. Cuando regreso o despierto o tomo conciencia de mi acto, veo en torno de mí alimentos prohibidos y siento mi ser lleno, ahíto, insoportablemente colmado y odiado. Éste es un problema casi insoluble. Y lo es porque no se puede resolver definitivamente. Hay que luchar todos los días, como Sísifo. Esto es lo que no comprendo. Que la vida contiene días, muchos días, y nada se conquista definitivamente. Por todo hay que luchar siempre y siempre. Hasta por lo que ya tenemos y creemos seguro. No hay treguas. No hay la paz". 
"No tengo que comer. Tengo que aprender a decir no a los alimentos, como si ello fuera lo natural y la única respuesta posible. Así como un cojo diría que no corre porque no puede". 
"Cada vez más obesa. O al menos así lo siento". 
"Descubro que estoy encerrada en mi habitación porque me siento gorda. De lo contrario, hubiera ido a la fiesta de H. P. Pero calculé las calorías de todo el vino que tomaría y decidí quedarme aquí comiendo. Esto es absurdo. Y son solamente tres kilos de más". 
"Ahora sé por qué estoy obsesionada por adelgazar: es una manera de hacerme más pequeña, más infantil. Porque mi cuerpo adulto me ofende. Por algo es que mis pechos son pequeños. Y no lo eran cuando tenía trece años". 
"me fui a la cocina a hundirme en revistas idiotas de cine y folletines y comencé a comer sin hambre. Después vino Nelly B. Me sentí tan culpable de recibirla habiendo comido tanto y leído tantas estupideces, que me sentí enferma y vomité". 
"Me estoy destruyendo con cigarrillos y comida. Mi cuerpo no soporta más".  
"me compré docenas de chocolates que comí como quien se suicida, que vomité para tener espacio y seguir comiendo, envenenándome, anonadándome, aniquilándome".
"durante el día como y vomito, y para disculparme ante mí misma voy a una que otra exposición, para demostrarme que me interesa el arte, y miro los cuadros con un solo ojo porque el otro está en el reloj, para ver —cosa curiosa— cuánto tiempo aguanto mirando pinturas".  
"Por qué me asusta y me horroriza y me lleva a querer suicidarme el haber aumentado tres kilos de peso. Pensar que si los rebajara —no son más que tres kilos— sería casi feliz… Qué poco, y cuánto. Porque para rebajarlos no tengo que comer, para no comer tengo que estar contenta, para estar contenta tengo que mirar un cuerpo delgada en el espejo cuando me miro, para verme delgada tengo que dejar de comer, para dejar de comer tengo que estar contenta…" 
"He visto una foto de Marguerite Duras y me puse contenta. Es pequeña y gorda. «Para escribir no es imprescindible ser una belleza», me dije. Y me alegré". 
"El hecho de haberme engordado como a un animal que se va a devorar en las fiestas se debe a que, inconscientemente, yo sabía que si engordaba no iba a querer salir ni ver a nadie. Y es lo que me pasa ahora. Llamá a X, me digo. Y me miro en el espejo. No, me respondo, la semana próxima lo llamaré, lo llamaré cuando esté más delgada. Y resulta que la semana próxima estoy más gorda".  
"Mi desorden es general. Fraenbel me anunció que estoy enferma por mi desorden alimenticio. «Troubles de la nutrición.» Me dijo que soy como los salvajes de África: ocho días sin comer y después se comen un hipopótamo". 
"Nunca me odio tanto como después de almorzar o cenar. Tener el estómago lleno equivale, en mí, a la caída en una maldición eterna. Si me pudiera coser la boca, si me pudiera extirpar la necesidad de comer. Y nadie goza en esto tanto como yo. Siento un placer absoluto. Por eso tanta culpa, tanta miseria posterior". 
"Me compro un sándwich de jamón y queso y lo como, lo que por otra parte no es un objeto para despedirse puesto que es perfectamente salubre, por lo cual me acerco a una pâtisserie y entro y señalo dos cosas llenas de crema y de colores enfermizos y de gusto a algo que «hace mal». Lo empiezo a comer y descubro que no tengo hambre, que tengo miedo de que me haga mal y yo me desmaye por la calle, antes de entrar, por lo que arrojo los gâteaux y entro al consultorio. Pero lo que me impresionó fue mi urgencia hasta encontrar la pâtisserie: miraba el reloj y me decía: «te quedan ocho minutos para despedirte; ahora te quedan seis» y corría por las callecitas «que conocieron Dante y Rabelais» y seguramente Rilke y tantos grandes, yo corría con la muerte en el alma, no a causa de un vacío metafísico sino porque no encontraba «algo que hiciera mal», un dulce como un veneno, un dulce letal, terrible, que me destruya al instante de ser consumido".

Ela nao so tinha medo de engordar, como tinha vergonha de andar com pessoas gordas:
"Después me llamó Beatriz Tuninetti, esa montaña de prejuicios y de grasa. Me descubrí avergonzada: si me llegaran a ver por la calle con una persona tan gorda. Pero debe ser otra cosa, es decir, mi aversión a la obesidad, que es profundísima. La obesidad me parece una mentira, algo retorcido y triste, como pegar a un niño por un placer sádico. Hay algo obsceno en ella. Oh y tengo tanto miedo de engordar. Quiero reducir mi cuerpo a su verdad. Quiero adelgazar, recuperar más aún mi rostro y mi forma. Esto me importa enormemente."
Amiguinha, se você se encontra nesta situaçao, nao tenha vergonha de procurar ajuda. Transtornos alimentares podem estar relacionados com outros disturbios e para tudo isso tem jeito, tem profissionais especializados para dar todo apoio, viu? Nunca sofra sozinha!!!

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Balanço de leituras dez-jan

Contos

  • Ovelhas Negras - Caio Fernando Abreu
Matando a saudade da minha adolescência relendo Caio. Nao gosto de releituras, toda vez que releio eu perco o tesao que eu senti ao ler a primeira vez. Meus contos preferidos deste livro hoje sao:
Lixo e purpurina: um diario autobiografico durante o tempo que ele passou em Londres. Parece que todo expatriado vira poeta, né nao?
8 de fevereiro
Chorei três horas, depois dormi dois dias.
Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total. 
25 de fevereiro
Essa morte constante das coisas é o que mais dói.
Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica de mim em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro 
Sem data
Claro, o dia de amanhã cuidará do dia de amanhã e tudo chegará no tempo exato. Mas e o dia de hoje?
10 de abril
(...)
Estranho, mas é sempre como se houvesse por trás do livre-arbítrio um roteiro fixo, predeterminado, que não pode ser violado. Um roteiro interno que nos diz exatamente o que devemos ou não fazer, e obedecemos sempre, mesmo que nos empurre para aquilo que será aparentemente o pior. O “pior” às vezes é justamente o que deveria ser feito.
26 de maio
Hermes me dá os poemas de Sylvia Plath. São febris, obsessivos, mórbidos, mas não consigo parar de ler. Fico tentando traduzir Fever 103, mas é difícil, já nos três primeiros versos tenho um problema:
Pure? What does it mean?
The tongues of hell
Are dull, dull as the triple (...)
Os dois primeiros versos, tudo bem. E “labaredas” acho que fica melhor que “línguas”, é evidente que ela está se referindo ao fogo dos infernos. Mas como traduzir dull? Opacas, sujas, gordurosas?
Sylvia Plath é sempre um mal-estar. 
 O conto "Anotações sobre um amor urbano" é tao lindo e dolorido ao mesmo tempo...
“Vamos embora para um lugar limpo. Deixe tudo como está. Feche as portas, não pague as contas nem conte a ninguém. Nada mais importa. Agora você me tem, agora eu tenho você. Nada mais importa. O resto? Ah, o resto são os restos. E não importam”. Mas seus livros, seus discos, quero perguntar, seus versos de rima rica? Mas meus livros, meus discos, meus versos de rima pobre? Não importa, não importa. Largue tudo. Venha comigo para qualquer outro lugar. Triunfo, Tenerife, Paramaribo, Yokohama. Agora, já. Peço e peço e não digo nada mas peço e peço diga, diga já, diga agora, diga assim. Você não diz nada. Você não me vê por trás do meu olho que vê. Você não me escuta por trás da minha boca que pede sem dizer, e eu bem sei. Você planeja partir para um país distante, sem mim, de onde muitos anos depois receberei a carta de um desconhecido com nome impronunciável anunciando a sua morte. Foi em abril, dirá, abril ou maio. Ou setembro, outubro. Os mais cruéis dos meses. Tanto faz, já não importará depois de tanto tempo, numa cidade remota.
"Sob o céu de Saigon" é o conto mais paulistano dele. Descreve tao bem a galera que sobe e desce a Rua Augusta aos sabados, fala do Conjunto Nacional, do estilo das meninas de camiseta, jeans e tenis surrado, sempre segurando a bolsa. Bateu aquela saudade de casa.

Teatro

  • O Circulo de Giz Caucasiano - Bertolt Brecht

Numa cidade do antigo Caucaso, o rei é deposto e enforcado, a rainha foge deixando o filho para tras. Groucha que trabalhava na cozinha do reino, compadece da criança e o cria como se fosse dela. Com o tempo a rainha procura o filho e reivindica a maternidade. Groucha passou por varias dificuldades e até humilhaçoes para proteger a criança. Mae é quem pariu ou quem cuidou? That is the question.


  • O Casamento do Pequeno Burguês + 4 peças- Bertolt Brecht

É uma comédia. O noivo fez questao de construir com suas proprias maos, os moveis para sua nova casa. Durante o almoço de casamento, a mesa e as cadeiras começam a desmontar, a porta do guarda-roupa esta emperrada. Um convidado começa a dar em cima da noiva que casou gravida, uma parafernalia sem fim.

Uma outra peça que esta no mesmo livro é a Lux in tenebris. Paduk instala uma tenda na frente do bordel da madame Hogge. Passa a dar palestras educativas (cobra a entrada por isso, obviamente!), mostrando as consequencias das doenças venéreas, falando do pecado da prostituiçao, de que as prostitutas sao vitimas, etc, etc. Até que a madame do bordel chega para ele e fala: se você destroi o meu negocio, o seu vai ser destruido também. Se ninguém mais frequentar o bordel, também nao frequentarao suas palestras e você nao ganhara dinheiro facil.


  • Os Monologos da Vagina - Eve Ensler

Tem post aqui.


  • Incêndios - Wajdi Mouawad


É a segunda peça teatral da tetralogia "o sangue das promessas", do dramaturgo e diretor quebecois de origem libanesa, Wajdi Mouawad. Narra a história de Nawal que ao falecer deixa um testamento para seus filhos, um casal de gêmeos, lá ela deixa pistas de como eles podem conhecer suas origens e quem era o pai deles.
"Há verdades que só podem ser reveladas na condiçao de serem descobertas. Vocês abriram o envelope, vocês quebraram o silêncio".

Poesia


  • Capitale de la douleur - Paul Éluard

Éluard escrevia poesia surrealista. Ouvi falar dele pela primeira vez quando assisti ao filme Alphaville, de Godard em que a atriz Anna Karina lê umas poesias dele.
Ler poesia surrealista é a mesma coisa de estar sob efeito da cannabis, alguém fala sério com você, mas você nao consegue conectar uma coisa com a outra e começa a rir por nao estar entendendo bulhufas. Vou reler, é falta de entendimento sobre o Surrealismo, vou me inteirar primeiro. Mesmo assim algumas me cativaram, deixo duas:
Nudité de la vérité 
Le désespoir n’a pas d’ailes,
L’amour non plus,
Pas de visage,
Ne parlent pas,
Je ne bouge pas,
Je ne les regarde pas,
Je ne leur parle pas
Mais je suis bien aussi vivant que mon amour et que mon désespoir.
La courbe de tes yeux 
La courbe de tes yeux fait le tour de mon cœur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
Et si je ne sais plus tout ce que j’ai vécu
C’est que tes yeux ne m’ont pas toujours vu.
Feuilles de jour et mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs
Parfums éclos d’une couvée d’aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l’innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards.

  • Baladas - Hilda Hilst
Foi so amor. Amei tudo. Alguns fragmentos:

Gostaria de encontrar-te.
Falar das cousas
que já estão perdidas.
Tuas mãos trementes
se desmanchariam
na sonoridade
dos meus ditos.
Faria de teus olhos
luz,
de tua boca
um eco.
Nos teus ouvidos
eu falaria de amigos.
Quem sabe se amarias escutar-me.
_______________________________________
Só não existe amargura
onde não existe o ser
Só não morro de amargura
porque nem mais morrer eu sei.
 
________________________________________
Me fizeram de pedra
quando eu queria
ser feita de amor
________________________________________
Ah! Se ao menos em ti 
eu não me dissolvesse.
E se ao menos contigo
ficar pouco de mim
lembrança de algum dia
ou meu nome guardar
um momento de sol...
Se ao menos existisse
em nós a eternidade. 

  • O Coraçao disparado - Adélia Prado
Gosto da mescla sacra-profana das poesia da Adélia, ela mistura simbolos do catolicismo no meio de qualquer assunto. Meus poemas preferidos: Tempo, Corridinho, Dolores, Paixao, Gênero e Entrevista.
Fragmentos:

A vida rui? A vida rola mas não cai. A vida é boa. (Tulha)

Eu sou feita de palha,
mulher que os gregos desprezariam?
Eu sou de barro e oca.
Eu sou barroca. (Gênero)

Tua dor de cabeça tem origem psíquica;
tantos comprimidos à mão,
nenhum para o esquecido calor de entre as pernas... (A fala das coisas)



  • Biografia para encontrarme - Mario Benedetti
Ja falei que amo Benedetti, também Galeano e Mujica y todos los hombres uruguayos. Dios mio! Si quieres darme un hombre, que sea del Uruguay. Amen!
Poemas preferidos: Libros, Los que se fueron, Mi pais, Droga del amor, Anoranzas, Existir, Catastrofe, No estoy, Escandalo e Entre dos vacios.
Resumiendo
no somos los que somos
ni menos los que fuimos
tenemos un desorden en el alma
pero vale la pena sostenerla
con las manos / los ojos / la memoria
tratemos por lo menos de engañarnos
como si el buen amor
fuera la vida (Resumen)
__________________________________
la felicidad tal vez consista en eso
en creer que creemos lo increíble (Mentiras piadosas)
___________________________________
Catástrofes 
Yo guardo mis catástrofes con mimo
con ellas aprendí más que en mis éxitos
el dolor deja cicatrices sanas
y nos da clases sobre lo prohibido
lo que duele un desastre no se olvida
la memoria lo guarda bajo llave
a veces tantas veces cada tanto
las catástrofes son revelaciones
uno se enfrenta a lo que no sabía
de sí mismo y es una sorpresa
las cicatrices son como dibujos
que describen un poco nuestra vida
son un secreto que no se revela
porque el dolor esconde su tristeza

  • Œuvres Poétiques - Arthur Rimbaud
Poemas que mais gostei: Mauvais sang, Alchimie du verbe, Faim, Soleil et char, Les pauvres à l'église,  Le coeur du pitre, Voyelles

"La morale est la faiblesse de la cervelle"

Epistolar

  • Correspondências - Clarice Lispector
Tem post aqui

Ensaio


  • La Société du Spectacle - Guy Debord
É um ensaio filosófico, sócio-político, econômico e social. Excelentes reflexões sobre ideologias, consumo, meios de produção, urbanismo, turismo, artes, publicidade e propaganda, meios de comunicação em massa, etc.


Policial


  • O Natal de Poirot - Agatha Christie
Foi meu primeiro contato com a obra da Agatha Christie. Gostei! Poirot é uma figura.


Romance


  • Oliver Twist - Charles Dickens
Charles Dickens sendo Charles Dickens batendo sempre na mesma tecla. Um menino orfao que nao se deixa corromper, é colocado em situaçoes complicadas, cheio de viloes, mas consegue se sobressair. Adoro a escrita dele, apesar dos traços da moralidade puritana do séc. XIX.
Vou fazer uma nao-resenha mais para frente sobre o livro e o filme, pois coloquei em pratica uma coisa que Virginia Woolf disse. Depois explico.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Os monologos da vagina, de Eve Ensler

O livro escolhido de janeiro/fevereiro do grupo Our Shared Shelf, foi a peça teatral "Os monologos da vagina", da dramaturga, performer e ativista americana, Eve Ensler. Comprei a ediçao em francês no Kobo. Adorei essa capa de duplo sentido!

Dedicatoria:
"Dedico este livro à todas as mulheres. Que suas vaginas sejam honradas, queridas e livres"
Começa com um prefacio da Gloria Steinem que conta como a genitalia feminina ainda é um tabu na sociedade ocidental. Nem as mulheres sentem-se à vontade de pronunciar a palavra vagina, costuma-se apontar para baixo ou inventar eufemismos para evitar falar esta palavra. Conta também que nos templos hindus é comum ver simbolos que representam os orgaos sexuais tanto masculino como feminino que sao considerados sagrados no Tantra e é a energia do orgao feminino que tem o poder de revigorar a energia masculina.
Em seguida tem o prefacio da propria autora explicando o que a motivou a escrever este monologo. Ela sofreu abuso sexual na infância e tinha dificuldade em lidar com esta parte do corpo.
Notou também que quando a peça estreava em varios lugares do mundo, sempre sofria censura por causa do titulo. A publicidade, os ingressos, o cartaz vinham escrito apenas "Monologos" ou "Monologos da V." Ela se pergunta o porquê disso, visto que vagina é um termo medical e nao pornografico.
Explica porque a palavra vagina precisa ser falada, pois 500 mil mulheres sao estupradas nos EUA a cada ano, 100 milhoes de mulheres sao submetidas à mutilaçao genital. Todas essas dores criam um muro impenetravel, tornando dificil falar vagina, como se fosse uma coisa suja, que atrai problemas.
A autora entrevistou cerca de 200 mulheres de varias faixas étarias, etnias, religioes, heteros e homos para criar o texto.

O primeiro monologo chama-se "Pêlos". Sobre uma mulher que o marido exigia que ela se depilasse por completo. Ela odiava, tinha alergias, os pêlos encravavam, sentia como se fosse uma criança. Até que um dia ela preferiu os pelos ao marido que ja tinha chifrado ela varias vezes.

O segundo monologo é dedicado a uma senhora de 72 anos que nunca tinha olhado para propria vagina, nunca tinha tido um orgasmo e nunca tinha se masturbado. Intitulado "Inundaçao", narra a historia de uma moça apaixonada que estava no carro com o cara que ela gostava, eles começaram a se beijar e ela ficou tao molhada, mas tao molhada que molhou até o banco do carro. O moço ficou enojado por ela ter sujado o carro dele. Ela ficou tao decepcionada que a partir daquele dia evitou todo contato para nao mais acontecer uma outra inundaçao.

O terceiro chama "Fatos historicos da vagina", foi retirado da Enciclopedia Feminina. Em 1563, durante um processo de acusaçao de bruxaria. O magistrado (casado) descobriu o clitoris da acusada, chamou-o de colina do diabo, ninguém no recinto tinha visto um clit antes. Claro que a mulher foi queimada na fogueira por ter um fucking clitoris.

O quarto monologo fala da primeira menstruaçao e dos traumas que vem junto. O medo de sujar a roupa, a escolha entre absorventes internos e externos, etc.

O sexto também é "Fatos historicos da vagina" e fala que o clitoris é o unico orgao humano feito apenas para o prazer, com 8000 terminaçoes nervosas, é a maior concentraçao de terminaçoes nervosas que se pode encontrar no corpo humano.
(EIS A BENÇAO DE SER MULHER! So nos temos o privilégio de ter esse orgao maravilhoso. Vamos nos orgulhar dele)

Tem um outro monologo chamado "Minha vagina, minha cidade", dedicado às mulheres da Bosnia. Aff! É muito dolorido. Nao tem como nao chorar quando você vê que o corpo da mulher é usado como arma de guerra. Mulheres eram estupradas pelos inimigos e engravidam deles e viravam maes de filhos indesejados.

Em seguida vem outro monologo sobre "Fatos historicos da vagina". Conta que no século XIX a masturbaçao feminina era tratada como caso clinico, o tratamento era a incisao ou a cauterizaçao do clitoris ou o uso de cinto de castidade. O ultimo caso de clitoridectomia que se tem noticia, aconteceu nos EUA, em 1948, em uma menina de 5 anos de idade.

O outro "Fatos historicos" fala da mutilaçao, das mais de 100 milhoes de mulheres que sao submetidas a isso, a mutilaçao é feita com caco de vidro, tesouras enferrujadas, etc. Fala de todos os problemas de saude que vem depois. Infecçoes, lesoes na uretra, cicatrizes, abortos. É de se revoltar!

Tem varios outros monologos, mas vou parar por aqui. A vagina é isso, uma zona de dor e de prazer. Infelizmente a maioria das mulheres do mundo nao tem controle do seu proprio corpo, todo mundo quer opinar o que elas devem ou nao fazer, elas nao tem direitos, sao mutiladas, agredidas, violentadas e têm medo de falar sobre o assunto. 
A mulher ainda tem que lutar muito para ser dona do proprio corpo, buscar um prazer saudavel, pedir coisas na cama, se tocar. Ela tem um orgao feito para o prazer, mas ela se nega a senti-lo para nao ser mal vista. Liberem-se, moças!

Pinto, porra, caralho estao em todas as bocas, é falado em qualquer conversaçao. Agora tenta falar vagina ou feminismo....

Aproveitando o tema, a minha youtuber francofona favorita fez um video falando de vulva. É tema do seu novo livro e que lerei também, bien sûr! Ela fala que a labioplastia é também uma mutilaçao e que nao precisamos ter a vagina feita com cirurgia plastica das atrizes pornôs. Nos temos labios de varios tamanhos, de varias cores e com pêlos. Lidem com isso!




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

DocumentYourLife: Jornal das minhas loucuras privadas n.14

Possiveis influências dos astros na minha vida no novo ano

Deixarei anotado aqui para no final do ano fazer um bilan do que funcionou ou nao. Fernando Pessoa levava isso muito à sério, era geminiano, sou sagita, mas meu ascendente é em Gêmeos. Vou testar algumas coisas, se funcionar, bem, se nao, pelo menos me diverti e ocupei meu tempo.

2017 - Ano de Saturno = Kronos (tempo) + deus da semeadura (trabalho). Tempo = dinheiro. Colheremos o que plantaremos. Muita disciplina, foco e atençao, porque havera muita cobrança e ajuste de contas. Saturno é austero e impiedoso, matou até os proprios filhos. Lembrando que a era de Saturno vai até 2052.

De 01/01 a 20/03: Periodo de preparaçao

  • Organizar documentos, burocracias, ter um planejamento claro para cada area da vida.
  • Pegar tudo que nao esta bem e buscar tratamento.
  • Desfazer de superfluos, tranqueiras. Método Kondo e Minimalista mais uma vez
  • Providenciar o processo de cidadania
  • Deixar o curriculo em dia e prestar muita atençao nas vagas e concursos.
  • Planejar as leituras mensais
  • Estudar, estudar, estudar...

20/03: Começa o ano astrologico  e vai cobrar o que eu preparei nos 3 meses anteriores.

Ano 1 = individualismo e independência. Decidir por si so (isso ja faço). 
Otimo periodo para recomeços. 

Horoscopo chinês: Ano do galo
Lado bom: disciplina e esforço pessoal vao gerar bons resultados
Lado ruim: as pessoas estarao mais agressivas, vaidosas e autoconfiantes.
Evitar tretas e selfies!

Meu signo ho horoscopo chinês é Cavalo: Possibilidades de ganhos e satisfaçao. 

Mercurio retrogrado quatro vezes

Mercurio esta relacionado com comunicaçao, linguagem oral e escrita e serviços. Quando esta retrogrado, estas areas sao alteradas e surgem contratempos. 
Significa: grandes riscos em ser mal interpretada. Nestes periodos evitar resolver burocracia, assinar papeis, ser ativa em redes sociais, emitir opinioes, entrar em discussoes, relacionar-se com pessoas, tomar decisoes importantes, fazer altos gastos e exames médicos. Antes da época do Mercurio retrogrado: fazer backup e organizar as pastas do computador para nao correr risco de perder documentos. Organizar documentos em papel em pastas.

Colocar as datas no celular para nao esquecer de maneira alguma:

19/12 a 07/01 (esse ja rolou e  fiz merda, gastei dinheiro, mandei cartas e postei no blog)
10/04 a 03/05
13/08 a 05/09
03/12 a 25/12


Previsoes para sagitario

  • Cuidar da aparência e alimentar-se bem (Nah, not me, satan! Me deixa com minha junk food, refris, chocolates, vinhos e cigarros)
  • Este ano sera positivo no âmbito profissional (até que fim! Veremos!)
  • Gerir bem o dinheiro. (Se ao menos eu tivesse...)
  • Você deverá se propor a realizar mais atividades, onde possa conhecer gente nova e começar uma boa amizade. (Preciso de vida social, atividades em grupo, tô virando um bicho do mato solitario, dentro de uma bolha que so tem livros e séries. Estou desenvolvendo uma fobia social, toda vez que preciso me expor, falar com alguém, me da um troço esquisito, eu nao era assim).
  • Começo da primavera até fim de novembro: pessoas mal-intencionadas vao querer te passar pra tras. Evitar fazer negocios e compras influenciada por terceiros. (anotado!)
  • Bom ano para fazer um safari (se tem uma coisa que nao me interessa nem um pouco é safari)
  • Um problema na familia durante o verao vai me deixar triste. (ouch!)
  • Relacionamento amoroso so no segundo semestre. No primeiro, concentre-se no trabalho (também dispenso, escolhi a solidao dos bosques e a vida reclusa).
  • Na primavera, uma pessoa de touro que trabalha com você vai te cortejar e se você corresponder, nao vai se arrepender (ja vou perguntar os signos para manter distância, fiquei traumatizada com este episodio, de novo nao!)
  • Inverno: uma pessoa que você gosta, admira e confia vai te ofender (Eita! As pessoas que gosto e admiro estao tao longe de mim e quase nao tenho contato com ninguém, anyways...Fica uma mensagem para você, ofensor)


  • Comer 12 cerejas no reveillon (essa foi facil, comi com gosto)
  • Tomar banho com alecrim, açucar e rosas brancas um vez por mês. (banho com açucar? nah!)


Hora planetaria é diferente da hora do nosso relogio.

Estudar e comunicar-se na hora de Mercurio. Vida social e amorosa na hora de Vênus. Limpeza, higiene e compras na hora lunar. Se funciona, nao sei, mas pelo menos é bom para aprender matematica.

Dias da semana
Segunda=lua
Terça=marte
Quarta=mercurio
Quinta=jupiter
Sexta=vênus
Sabado=saturno
Domingo=sol

Horas:
sol, vênus, mercurio, lua, saturno, jupiter, marte

Olhar a hora que o sol nasce e a hora que ele se poe e divide por 12 (hora diurna). Olha  a hora que o sol se poe até a hora que nasce e divide por 12 (hora noturna).
Se é segunda-feira, coloca a primeira hora na lua, a segunda hora sera saturno, a terceira sera jupiter e assim sucessivamente.
Ex: hoje é sabado, 31 de dezembro. O sol vai nascer às 7:31 e se por às 16:05, no Canada (hora diurna).
Transforme as horas em minutos: 7h31 = 420 min e 16:05 = 965 min. Em seguida subtrai a hora final pela a inicial: 965-420=545, divide 545/12= 45. Cada hora planetaria tera 45 minutos.
Minha primeira hora começa na casa de saturno e sera de 7h31 + 45 min = 8h16, a segunda hora começa na casa de jupiter às 8h17 +45 min= 9h02 e assim sucessivamente. Aff, nao tem um programinha que faz essas contas nao?


Mano, parei! Gente do proletariado como eu, tem que acordar 6h da manha para chegar no trampo no horario, seja no sol, na chuva, na neve, na hora de vênus ou de saturno, o capitalismo nao respeita a astrologia.Talvez em um dia muito dificil que requer grandes decisoes, recorrerei a esses calculos, mas nos fucking boring days servindo o sistema, simplesmente nao rola.
Resumo da opera: Quando me aposentar, se estiver viva até la, talvez seguirei a hora planetaria. Hoje, vou continuar me lascando as always
So preciso fazer meu mapa astral para conhecer meus karmas e saber lidar com eles.


sábado, 21 de janeiro de 2017

Correspondências, de Clarice Lispector

Li Correspondências, de Clarice Lispector e vou deixar alguns fragmentos de assuntos que me interessam, tais como: os filmes que ela assistiu, os livros que leu, os lugares em que ela morou ou turistou, choques culturais e até receitas. Vou começar com cartas de amor:


Sendo fofa com aquele que viria a ser seu marido e pai de seus filhos, Maury Gurgel Valente


"Somente uma coisa me faria bem agora. Seria adormecer com a cabeça no seu colo, você me dizendo bobagenzinhas gostosas pra eu esquecer a ruindade do mundo. Vou dormir pensando nisso"
"tinha vontade de fazer um embrulho de mim, com papel de seda, lacinho de fita, e mandá-lo pra você. Aceita?"
Resposta dele: "Eu topo integralmente a ideia de receber você num embrulhinho, com laço de fita e tudo. Manda, meu bem, que eu ponho debaixo do travesseiro. Assim, só pensarei em coisas boas."
Ela tentando defini-lo e ele vem com essa: "Então você pensa que me apanha numa definição? As definições são asfixiantes e eu gosto de liberdade". 

Solidao e aborrecimentos


"Estou bastante acostumada a estar só, mesmo junto dos outros". (À Maury)
"Estou cansada de pessoas e sozinha me aborreço. Eu mesma não sei o que quero" (À Tania Kaufmann)
"tenho impressão de que quando eu for velha hei de praguejar o tempo todo" (À Lucio Cardoso)

Leituras e livros:


Aldous Huxley
"Sua carta veio justamente depois de uma noite de quase-insônia, de sonhos malucos e de Huxley." (À Maury)
Resposta de Maury com indicaçao de livro: 
É isso mesmo, você anda lendo Huxley. Leia o fim do “Contraponto”, também, “of suchs is the kingdom of heaven”

Gustave Flaubert
"Caiu-me plenamente nas mãos Madame Bovary, que eu reli. Aproveitei a cena da morte para chorar todas as dores que eu tive e as que eu não tive." (À Lucio Cardoso)

Rosamond Lehmam
"Estive relendo um livro de Rosamond Lehmam, passagens sobre crianças, coisas adoráveis." (À Tania Kaufmann)

André Gide e Katherine Mansfield
"Reli a Porta estreita de Gide, sobretudo encontrei as Cartas de K. Mansfield. Não pode haver uma vida maior que a dela, e eu não sei o que fazer simplesmente. Que coisa absolutamente extraordinária que ela é."
"Talvez você ache o título mansfildeano porque você sabe que eu li ultimamente as cartas da Katherine." (À Lucio Cardoso)

Rainer Maria Rilke e Marcel Proust
"É ótimo falar com ele (Paulo Mendes) sobre livros dos quais a gente gosta. Ele me emprestou os Cahiers de Malte, de Rilke, e pedaços escolhidos de Proust." (À Lucio Cardoso)

Policiais e Jean Giraudoux 
Estou lendo em italiano e romances policiais também. Li Anfitrião 38 (peça teatral de Jean Giraudoux). (À Lucio Cardoso)

Proust (de novo) e Poussière
"Assim, eu estava lendo Poussière e encontrei uma coisa quase igual a uma que eu tinha escrito. E agora que estou lendo Proust, tomei um choque ao ver nele uma mesma expressão que eu tinha usado no Lustre, no mesmo sentido, com as mesma palavras. A expressão não é grande coisa, mas nem sendo medíocre se chega a não cair nos outros.
Estou lendo À sombra das rap’rigas eim floire, como traduziram os portugueses, estou lendo em francês naturalmente. Eu pensava que ia gostar de Proust como se gosta das coisas esmagadoras; mas com grande surpresa vejo que tenho um prazer enorme e sincero em lê-lo, acho-o naturalíssimo, nada cacete, nada imponente, pelo contrário, de uma modéstia intelectual que nunca se sacrifica por um brilho, por uma imagem; você concorda? diga." (À Lucio Cardoso)

Emily Brontë
"Minha irmã Elisa mandou-me uma tradução sua de Emily Brontë, ainda não li de tão cheia de mil pequenas ocupações esses dias." (À Lucio Cardoso)
"Um dia desses eu acordei com uma moleza de gripe e depois do café voltei para a cama. Achei então que era um bom momento para ler as poesias de Emily Brontë. Como ela me compreende, Lúcio, tenho vontade de dizer assim. Há tanto tempo eu não lia poesia, tinha a impressão de ter entrado no céu, no ar livre. Fiquei até com vontade de chorar mas felizmente não chorei porque quando choro fico tão consolada, e eu não quero me consolar dela; nem de mim. Você está rindo?" (À Lucio Cardoso)

Julien Green
"Julien Green para mim é dos maiores e foi minha paixão por muito tempo (só deixou de ser porque também as paixões literárias vão se apagando, sem se saber por quê). Mas ainda o venero, apesar de seus últimos livros terem decaído muito." (À Tania Kaufmann)

Tomás de Kempis
"Quanto às leituras, variadas, provavelmente erradas, a mais certa é a Imitação de Cristo, mas é muito difícil imitá-Lo, e isso é menos óbvio do que parece. "(À Fernando Sabino)

Nao leu Harper Lee
"Não li To Kill a Mocking Bird e não conheço o autor. Depois você me conta. (À Paulo Gurgel Valente)"

Livros do Brasil
"Recebo poucas notícias do Brasil, e quase nada de livros, nem sei o que se publica. Me mandaram Sagarana, Água funda e A busca, os três ótimos." (À Lucio Cardoso)

Criticas:

O critico deu a entender que ela estava copiando Virginia, Proust e Joyce, sendo que ela nem os tinha lido ainda.
"Escrevi para ele dizendo que não conhecia Joyce nem Virginia Woolf nem Proust quando fiz o livro, porque o diabo do homem só faltou me chamar “representante comercial” deles." (À Tania Kaufmann)
"Imagine que depois que li o artigo de Álvaro Lins, muito surpreendida, porque esperava que ele dissesse coisas piores, escrevi uma carta para ele, afinal uma carta para ele, afinal uma carta boba, dizendo que eu não tinha “adotado” Joyce ou Virginia Woolf, que na verdade lera a ambos depois de estar com o livro pronto." (À Lucio Cardoso)

Cinema

"Vi um filme idiota onde o rapaz dizia: eu gosto de você. E a moça dizia: eu sei, mas não gosto do jeito pelo qual você ama as pessoas. Eu sei, é preciso dar muito mais o que dou. É também de minha natureza carregar nos ombros a culpa do mundo. Se todos sentissem isso talvez saísse um novo mundo. Uma pessoa só pode apenas sucumbir. Foi isso que fiz chorando no cinema e aliviando uma mágoa confusa." (À Tania Kaufmann e Elisa Lispector)
"Temos ido ao cinema. Revi a Estranha passageira e realmente o filme, que não é novo em técnica ou em originalidade especial, tem uma linda história, cheia de sugestões e de conselhos discretos. Em Casablanca fui com o Cônsul americano ao cinema da Cruz Vermelha e vi Ladies in Washington. Não tem evidentemente letreiros em português, mas eu entendo tudo ou quase tudo; é uma questão de prática." (À Tania Kaufmann e Elisa Lispector)
"Em cidade pequena, até os filmes são ordinários, de far-west e comédias, de um modo geral. Fiquei radiante de você ter visto Ladrões de bicicleta. Não é mesmo um dos maiores filmes que já fizeram? Talvez mesmo o maior. Imagine que entramos no cinema para vê-lo sem nenhuma referência anterior, apenas porque o diretor era bom. Imagine o choque e a surpresa." (À Tania Kaufmann)
"Fui ver um filme impressionante: O bebê de Rosemary. É de arrepiar os cabelos. Mas se você for, tem que ir bem no princípio."
"Estou esperando um filme chamado Teorema, com o diretor italiano Pasolini. Você viu? Houve um festival de cinema aqui no Rio, mas a multidão era tal que se tornava impossível chegar perto dos cinemas. Espero vê-los em circuito normal."(À Paulo Gurgel Valente)

Exposiçao


"Fomos há pouco ver uma exposição de pinturas holandesa, de Van Gogh para cá. Eu estava vendo pacificamente com a cabeça. De repente vi um pequeno quadro Vers le Soir, de um pintor chamado Karsen. Entendi muito bem o que você disse, Tania, sobre a paisagem que se misturou com você. Esse quadrinho finalmente me dominou. É uma casa no cair da noite. Não posso descrever. Tem umas escadas, umas heras, o branco é azulado e tudo um pouco escuro; tem umas estacas – é um fim de caminho com mato."


Conselho que deu à irmã

"Você está toda viva! Somente você tem levado uma vida irracional, uma vida que não parece com você. Tania, não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar, querida irmã, minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito de si mesma e o respeito de suas próprias necessidades – depois disso fica-se um pouco um trapo. Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar, e contar experiências minhas e de outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo." (À Tania Kaufmann)

Condiçao feminina no Brasil

So para constar que a luta vem de longe e nada mudou.
"Uma das vereadoras (Lia Correa Dutra é vereadora agora, tomou posse um dia destes), uma senhora que se chama Ligia Lessa Bastos (talvez v. conheça, eu, não) está se batendo no Conselho, pela criação de uma “Casa para a Mãe Solteira” e então apareceram estatísticas. Vou reproduzir para v. tomar conhecimento. A gente sabe que existe muito no Brasil, país católico, que não admite divórcio e outras coisas, sem falar nos preconceitos, mas as cifras falam mais alto". (De Bluma Wainer)

Amigos expatriados contando suas experiências


Tenho dado muitas gafes aqui com o meu pobre inglês. Uma: entrei num Drugstore para comprar remédio para dor de cabeça e acabei levando uma loção para cabelos. Tenho tido muitos pesadelos. Um: ontem sonhei com um rato encravado na parede, guinchando de dor. Tenho reformado muitos conceitos. Tenho feito descobertas importantes, por exemplo: o pecado é simplesmente tudo o que Cristo não fez. Tenho conhecido sujeitos famosos, por exemplo: Duke Ellington. Tenho tido muito pouco dinheiro. Tenho tido muitas oportunidades de ficar calado. Tenho tido muita decepção com os Correios. Tenho tido cansaço, saudade e calma. Tenho bebido muito, muito, muito. Tenho lido os suplementos dominicais. Tenho tido vontade de voltar. Tenho escrito muitas cartas para você. Tenho dormido muito pouco. Tenho xingado muito o Getúlio. Tenho tido muito medo de morrer. Tenho faltado muita missa aos domingos. Tenho tido muita pena de Helena ter se casado comigo. Tenho tido dor de dente. Tenho certeza que não volto mais. Tenho contado muito nos dedos. Tenho franzido muito o sobrolho. Tenho falado muito com os meus botões. Tenho tido muita vontade de brincar. Tenho feito muitas manifestações de apreço ao Senhor Diretor. Clarice, estou perdido no meio de tantos particípios passados. Estou com vontade de fumar e o meu cigarro acabou, estou com vontade de namorar de tarde numa pracinha cheia de árvores, estou com muitas saudades de mamãe. 
(...)
Fernando Sabino é realmente um ser de comovente estupidez: no Brasil, tinha casa, amigos, emprego melhor, automóvel (se bem que...), chope no Alcazar, Rubem Braga, Moacir, livros na estante, cartas da família, doenças do Pagé, discussão com Nicodemus, sol na varanda, café na esquina, jornais pela manhã. Aqui ele não tem nada disso e ainda ganha menos, trabalha mais, se literatiza abominavelmente, finge que sabe inglês, é empurrado de tarde no subway, leva desaforo pra casa, come comida sem sal, toma café sem açúcar, e para o mal dos pecados nunca saberá com antecedência quando é que vai voltar.
(De Fernando Sabino)
Resposta de Clarice:  "Não cesso de imaginar vocês em New York e não sei como. Como é que Heleninha fala no meio da cidade? E você trabalha de noite num arranha-céu? e os arquivos? Só agora é que vejo que vocês no Rio eram uma das garantias que eu procurava. Por que é que todo mundo quer sair do Brasil?"
Quanto tempo na realidade vão ficar nos EEUU? Paulo diz que vocês ficarão seis meses apenas... Desejo muita felicidade a vocês. Sejam muito felizes: estou com vontade de dar conselhos grandiosos, dizendo: custa um pouco adaptar-se a um lugar novo etc. 

Bluma vai para o Brasil e quem sabe se de lá sairá ou quando. Sei q. é bom voltar – sinto saudades daquilo e sei mesmo q. vivendo aqui, não seria inteiramente feliz – faltar-me-ia o Brasil, mas agora q. sei q vou para ficar, q sei q vou deixar Paris, analiso melhor como esta cidade já é uma coisa na minha vida. (De Bluma Wainer)

Você foi a Paris ou vai? Que bom, se eu pudesse ir esperar você na estação. Clarice, queria que v. visse como o Sam tem saudades de Paris. O rapaz está doente e a doença é “parisite”. Que eu tenho também, é verdade. Não quero nem pensar que não voltarei lá. Ao contrário, penso sempre que voltarei e não muito tarde. Não sorria pensando que deixei de gostar do Brasil, não. Mas está acontecendo o que aconteceu quando cheguei dos E.U. – tudo e todos me aborreciam e eu não queria de jeito nenhum viver nos E.U. e naquele período, encontrei um grande trabalho político que me tomava todo o tempo. E hoje, encontro todo mundo pessimista, sem elã para nada. 
Desculpe Clarice, sei bem como v. desejaria voltar, porém creia – e v. sabe como queria voltar eu mesma –, a gente nem imagina o quanto aprende e quanto de bem nos faz estar um pouco fora. Sei, bichinha, que v. já está cansada de “ver coisas”. Mas lhe diz aqui essa sua irmã-postiça, não fique triste por não voltar agora para o Brasil. O lado sentimental, pessoal, essa tristeza gostosa talvez seja até melhor do que sentir essa tristeza que a gente não pode remediar, que é o Brasil de hoje. Eu sabia disso. É verdade, mas é que a gente, de longe, não pode impedir que nossa imaginação funcione e aqui, verifica-se que os homens pioram em vez de melhorarem e que a realidade é bem outra e tudo isso, mesmo para v. que não se mete nestas coisas de política, tenho certeza, ficaria triste mesmo sem sentir.
(De Bluma Wainer)

E você tem bem razão de não querer sair do Brasil. Se sair, que seja por pouco tempo, só para dar uma espiada, e voltar. É ruim estar fora da terra onde a gente se criou, é horrível ouvir ao redor da gente línguas estrangeiras, tudo parece sem raiz; o motivo maior das coisas nunca se mostra a um estrangeiro, e os moradores de um lugar também nos encaram como pessoas gratuitas. Para mim, se foi bom, como um remédio é bom pra saúde, ver outros lugares e outras pessoas, já há muito está passando do bom, está no ruim nunca pensei ser tão inadatável (sic), nunca pensei que precisava tanto das coisas que possuo. Embora agora mesmo esteja envergonhada de ser assim, porque enquanto escrevo a catedral está batendo os sinos; fico envergonhada de não viver bem em qualquer lugar onde uma catedral bata sinos, onde haja um rio, onde as pessoas trabalhem e façam compras; mas é assim mesmo. (À Lucio Cardoso)

Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? assim fiquei eu..., em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus aguilhões – cortei em mim a força que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que nos leve de volta, só a ideia de ver você e de retomar um pouco minha vida – que não era maravilhosa mas era uma vida – eu me transforme inteiramente. Mariazinha, mulher do Milton, um dia desses encheu-se de coragem, como ela disse, e me perguntou: você era muito diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com uma lassidão de mulher de cinquenta anos.  (À Tania Kaufmann)

Receitas


– Você gosta de comer coisa boa? Então experimente fios de ovos com creme de leite Nestlé. A gente não tem vontade de acabar nunca.

 – Esquente uma colher de sobremesa de vinho tinto, esquente uma xícara de café com açúcar, misture tudo e beba devagarzinho. Dá um gosto bom no coração.

– Experimente mocotó. Demora a cozinhar e leva tempero. Mande fazer um pirão com o caldo. É forte, é potente, dá força humana. É capaz de você odiar!!! (À Andréa Azulay)

PS: Eu, Ana, fiz essa do café com vinho, é muito bom mesmo!

Turistando

Sobre as mulheres de BH: "As mulheres daqui são quase todas morenas, baixinhas, de cabelo liso e ar morno. Aliás, quase que só há homens nas ruas. Elas, parece, se recolhem em casa e cumprem seu dever, dando ao mundo uma dúzia de filhos por ano. (À Lucio Cardoso)

Visita à Casablanca
"Na verdade eu não sei escrever cartas sobre viagens; na verdade nem sei mesmo viajar. É engraçado como, ficando pouco em lugares, eu mal vejo. Acho a natureza toda mais ou menos parecida, as coisas quase iguais. 
Casablanca é bonitinho, mas bem diferente do filme Casablanca... As mulheres mais do povo não carregam véu. É engraçado vê-las com manto, véu, e vestido às vezes curto, aparecendo sapatos (e soquete) tipo Carmem Miranda. A cidade não tem muita marca oriental, é cheia de soldados americanos, franceses e ingleses." (À Tania Kaufmann e Elisa Lispector)

"Nunca vi ninguém menos turista. (Vi muitas coisas mas não só tenho preguiça de contar, como de lembrar.)
As coisas são iguais em toda a parte – eis o suspiro de uma mulherzinha viajada. Os cinemas do mundo inteiro se chamam Odeon, Capitólio, Império, Rex, Olímpia; as mulheres usam sapato Carmem Miranda, mesmo quando usam véu no rosto. A verdade continua igual: o principal é a gente mesmo e só a gente não usa Sapatos Carmem Miranda." (À Lucio Cardoso)

Paris
Estivemos em Paris andando desde manhã até de noite. Aquela cidade é doida, é maravilhosa. Não consegui absorvê-la, ter uma ideia só. (À Fernando Sabino)

Não sei se estou louca por Paris. É difícil dizer. Com a vida assim parece que sou “outra pessoa” em Paris. É uma embriaguez que não tem nada de agradável. Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu não conheço, uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma. É por isso também que não tenho escrito. Não pensem que Clarice está se divertindo tanto que não tem tempo de escrever. Tempo eu tenho, mas escrever para vocês pediria uma concentração que estou evitando porque se eu me concentrar uma vez, passo a não querer ver tanta gente e a estragar o programa de Maury. Eu amo vocês. E Paris é ótimo e até conheci pessoas ótimas. (À Tania Kaufmann e Elisa Lispector)