sexta-feira, 2 de julho de 2010

Anna Karenina - Leon Tolstoi

"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira".

Nº de páginas: 654 (algumas publicações tem mais de 900 págs)
Para quem acha que é mais um romance de mulher adúltera, pode estar enganado. Esse livro conta toda a situação política da Rússia no século XIX. Anna só aparece lá pela página 60 e some bem antes do témino do livro.
A 1ª vez que tive contato com Tolstoi foi quando eu fiz um curso de Teologia e li "O reino de Deus está em vós", ele prega o cristianismo pacífico, é tipo de uma anarquia, já que recusa o governo dos homens, o poder da igreja e principalmente a estupidez da guerra. No livro "Anna Karenina" é fácil identificar as ideias descritas no "O reino de Deus está em vós", atráves do personagem Liêvnin, que é o próprio Tolstói, seu alter-ego.
Era leitura do desafio literário do mês de março, mas, pelo menos para mim, literatura russa não dá para ler direto em um mês sem ao menos fazer uma pesquisa sobre a situação naquela época, se for para eu ler e não entender, prefiro não ler. Foi por isso que eu fiz Teologia, inventei de ler a Bíblia e não entendi nada, fiz o curso, além de depois conseguir ler a Bíblia, tive uma das maiores experiências da minha vida.Teologia significa estudos sobre Deus, não quer dizer que é sobre religião, embora esteja totalmente ligada uma coisa com a outra, é a busca do homem por algo superior. Tanto que a palavra religião vem do latim religare, ou seja ligar o homem a Deus, o tal do elo perdido. Ironicamente eu sou cética que é diferente de ser ateu, ser cético é não ter certeza se Deus existe porque não tem como provar, já ateu significa negação de Deus, ele não acredita de jeito nenhum.
Voltando ao "Anna": É um livro que precisei pesquisar um pouco, portanto não é uma leitura fácil. Tolstói é extremamente detalhista na descrição física e psicológíca dos personagens, também a descrição do ambiente: a casa, os móveis, os empregados, a cidade, os amigos, a política, os ricos, os camponeses, é possível criar um filme na sua cabeça com todas as informações que ele passa sobre tudo.
Anna era uma mulher influente na sociedade, tinha sua vida normal com seu marido e filho, tudo transcorria muito bem, era bem tratada pelo marido (isso me lembrou muito "Casa de bonecas") e até que algo a tirou de sua vidinha rotineira, algo despertou dentro dela e viu que as coisas não estavam tão bem como ela imaginava, de repente ela percebeu que era capaz de amar outra pessoa além do marido e que para ter esse amor ela deveria abdicar sua vida confortável, estar à margem da sociedade, ao invés de ser influente, agora seria motivo de escândalo. Mas até que ponto somos capazes de suportar insultos, rejeição por defender o nosso amor ou nossas crenças? O quanto se suporta por amar mais o outro que si próprio? Tudo isso traz a própria anulação, humilhação, todas as nossas verdades são confrontadas. Ela tinha ido salvar o casamento do irmão e destruiu o seu próprio. Ela era linda, perfeita, simpática, até dar um basta e mostrar que não sabia o que era capaz de fazer até perceber que vivia uma ilusão, obedecia regras pré-estabelecidas pela sociedade, fazia o que era para o bem geral e não o bem para ela mesma, mas infelizmente Anna não conseguiu ser forte o suficiente para suportar tudo. Anna representa a Rússia. Seu marido representa os nobres que prezam a aparência, a boa vida e a hipocrisia, seu amante representa o militarismo, a guerra. Os costumes da época são um tanto curiosos, por exemplo: a família para ser chic, falavam em francês entre si, para ser cult falavam em alemão, era como uma negação da própria cultura, é achar que o estrangeiro é mais evoluído. Anna quebrou paradigmas, a Rússia também deveria sair da zona de conforto e romper com o conformismo e lutar com amor, o amor que Anna demonstrou quebrando todas as barreiras sociais, não com armas, mas com ações. O nome Anna significa, em hebraico, cheia de graça. Graça significa "favor não merecido", amar sem esperar nada em troca porque o outro nem merece tanto. É o amor doador. Por exemplo: Graças a Deus! quer dizer: mesmo não merecendo esse amor de Deus, foi-me concedido!
Ai que vontade de falar muito e de mais personagens e de todas as ideias que passam na minha cabeça, mas cada dia falamos menos, tudo está se resumindo a 144 caracteres (twitter), ninguém tem mais paciência para grandes reflexões.
Agora estou pronta para ler Guerra e Paz, dizem que é o melhor livro dele.

O FILME


Embora haja 3 ou 4 filmes, vi o mais recente com  Sophie Morceau, Sean Bean e Alfred Molina, enfoca mais a história da Anna, é  fiel ao livro, atores, figurino, cenário e trilha sonora, perfeitos. Muito bom!

4 comentários:

  1. Se da vontade de falar mais pq não falar? Linda sua resenha, deu muita vontade de ler o livro, deu até vontade de fazer teologia(e olhe que é um campo do conhecimento que não me atrai, sempre achei os teologos pedantes, mas vc não parece ser!! rsrsrs)...

    Chero... Bom Fim de Semana, Boa Leitura de Guerra e Paz!

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  2. Eu quase escolhi esse livro pra minha leitura do mês do clássico, mas ele continua na minha lista pro futuro.

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  3. ótimo texto Ana, por favor não desista de falar, pensar, escrever, é muito bom ter com quem trocar e compartilhar, adoro ler seu blog, adorava no stoa e adoro aqui! Tbm fiquei com vontade de ler... li a pouco tempo crime e castigo e tinham muitas expressões em francês, imaginei agora que deve ser pelo mesmo motivo observado por vc em Anna Karenina, interessante.

    bjo!

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  4. obrigada pelos comentários meninas.
    Pandora: Teologia realmente é pedante, não vou mentir, tem muita história, geografia, malucos religiosos, profetas, guerras, etc. Mas é interesante porque vc se surpreende com algumas coisas e pensa: Ah, então é por isso....
    Laura: Deixe o livro na lista, vale a pena, ele ficou na minha lista por anos, só agora criei coragem.
    Yu, tb já li Crime e Castigo, é muito bom! Por causa dele estou interessadíssima na literatura russa. Os russos adoram falar francês, tb ngm merece falar russo rsrs.

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