quarta-feira, 9 de junho de 2010

A paixão segundo G.H.



 Desafio literário do mês de junho: Ler um livro de uma escritora brasileira, escolhi Clarice Lispector
Aposto que se meu pai tivesse lido iria dizer: "Todo esse drama por causa de uma barata?" Porque minha mãe tem paúra de baratas, ela vê uma e grita desesperadamente, feito louca. Eu herdei esse medo, tenho medo até de barata morta.
O livro gira em torno de uma mulher, G.H. e uma barata, é um monólogo, uma reflexão existencialista, é tudo tão jeito Clarice de escrever.

O jornalista e escritor José Castello disse o seguinte desse livro: "Considerado por muitos o grande livro de Clarice Lispector, A paixão segundo G.H. tem um enredo banal. Depois de despedir a empregada, uma mulher vai fazer uma faxina no quarto de serviço. Mal começa a limpeza, depara com uma barata. Tomada pelo nojo, ela esmaga o inseto contra a porta de um armário. Depois, numa espécie bárbara de ascese, decide provar da barata morta".
Ao esmagar a barata, e depois degustar seu interior branco, operou-se em G.H. uma revelação. O inseto a apanhou em meio a sua rotina “civilizada”, entre os filhos, afazeres domésticos e contas a pagar, e a lançou para fora do humano, deixando-a na borda do coração selvagem da vida. Esse desejo de encontrar o que resta do homem quando a linguagem se esgota move, desde o início, a literatura de Clarice.


Fragmentos do livro:

Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda.

Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema.

e se a realidade é mesmo que nada existiu?!

Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria. Muitas vezes antes de adormecer - nessa pequena luta por não perder a consciência e entrar no mundo maior - muitas vezes, antes de ter a coragem de ir para a grandeza do sono, finjo que alguém está me dando a mão e então vou, vou para a enorme ausência de forma que é o sono. E quando mesmo assim não tenho coragem, então eu sonho.
Ir para o sono se parece tanto com o modo como agora tenho de ir para a minha liberdade. Entregar-me ao que não entendo será pôr-me à beira do nada.

Por enquanto o primeiro prazer tímido que estou tendo é o de constatar que perdi o medo do feio. E essa perda é de uma tal bondade. É uma doçura.

Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo.

O perigo de meditar é o de sem querer começar a pensar, e pensar já não é meditar, pensar guia para um objetivo, O menos perigoso é, na meditação, “ver”, o que prescinde de palavras de pensamento.

Ah, as pessoas põem a idéia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil esse pecado. O inferno mesmo é o do amor. Amor é a experiência de um perigo de pecado maior - é a experiência da lama e da degradação e da alegria pior. Sexo é o susto de uma criança.

A esperança é um filho ainda não nascido, só prometido, e isso machuca.

O leite da vaca, nós o bebemos. E se a vaca não deixa, usamos de violência. (Na vida e na morte tudo é lícito, viver é sempre questão de vida-e-morte.) Com Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele mesmo, quando precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos escolhe e nos violenta.

Eu  amo Clarice, não me sinto digna de usar minhas próprias palavras para defender a obra dela que para mim é perfeita e não precisa da minha aprovação porque ela se aprova por si só.
Esse livro tem 122 páginas, de fácil compreensão.
Já falei aqui do livro Felicidade Clandestina e de Clarice em artistas de sagitário.

7 comentários:

  1. Tambem estou lendo Clarice e estou adorando. Esse ainda vou ler. Bela resenha. Beijos

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  2. Nossa, meio esquisita a premissa, né? Não conhecia este enredo dela. Ótima resenha!

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  3. Eu estudei esse livro na escola, se não me engano no terceiro ano, e lembro perfeitamente a professora falando:

    "Se vcs tiverem matado uma barata, o que fariam? Jogariam fora? Ficariam com nojo? Pois é, Clarice a comeu."

    E daí começou a discussão... idéia boa né? Pena que eu detestava minha professora! rsrsr

    Abços!

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  4. Excelente!
    Tambem escolhi este titulo!
    Beijos

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  5. Comer a barata é TRANSCENDER!

    um dos meus prediletos de Lispector, mas amo PERTO DO CORAÇÃO SELVAGEM também!

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  6. Eu também li, Clarice para o mês. Estou maravilhada com o pensamento e a força da expressão dessa autora. Òtima participação.

    Beijocas

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  7. É engraçado, as vezes quando leio algum livro tenho essa mesma sensação, de que estou em frente de algo tão perfeito que não sou digna de usar minhas palavras para descrever... Clarisse é perfeita...

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