sexta-feira, 29 de abril de 2016

In memoriam dos poetas suicidas

Os poetas suicidas deixam claro em suas obras que irao suicidar-se. Porém, acreditamos que eles usam a licença poética, falam de morte sem querer morrer.
Nos que embriagamos da poesia, deveriamos ser guardioes, poderiamos fazer vigilias em suas casas para impedir a partida deles, mas isso seria egoismo de nossa parte, porque queremos mantê-los vivos para produzir mais alimento para nossa alma vazia. So que produzir poesia deve ser como produzir perolas, doi... A dor da alma é insuportavel, as pessoas sãs nao sabem disso. Essa dor fica nas profundezas de um buraco escuro, cheio de morcegos, ratos e corvos, tem cheiro carne em decomposiçao, é um lugar frio, umido, embolorado e você esta sozinho la dentro, ninguém consegue te tirar de la e você também nao consegue sair.
Deixe o poeta partir com pedras nos bolsos rumo ao rio, talvez faça parte do ritual poético determinar a hora da partida, dizem que nao sabemos quando morreremos, mas o poeta sabe, pois ele tem poder sobre sua vida e morte e sai vitorioso.
Deixe que ele se livre de sua alma atormentada...

terça-feira, 26 de abril de 2016

Leitura: As cartas mais bonitas de mulheres


Terminei a leitura do livro "Les plus belles lettres de femmes" (traduçao livre: As cartas mais bonitas de mulheres), dos autores Laurie Adler e Stefan Bollmann, os mesmos de "As mulheres que leem sao perigosas".
O livro narra a historia da literatura epistolar feminina e é dividido em: cartas de amor, cartas de amizade, cartas de amor maternal e filial, cartas de mulheres de influência e cartas de mulheres viajantes.
Vou comentar sobre algumas cartas, infelizmente nao da pra falar de todas:

Cartas de amor

Elizabeth Barret e Robert Browning eram poetas, trocara 537 cartas, apaixonaram-se. Quando criança, ela sofreu um acidente ao cair do cavalo, ficou paralisada na cama e sem contato com o mundo externo.
Ela tinha medo de casar-se, primeiro por sua condiçao fisica, segundo porque tinha um pai tirânico e ela tinha medo que o marido fosse igual e por fim, achava-se velha, ja tinha 39 anos. Porém, Robert foi insistente e ela cedeu, a familia achou um absurdo, o pai deserdou-a, tirou-a do seu testamento e nunca respondeu nenhuma carta dela.
Casaram-se, passaram 6 meses em lua de mel na Italia, seu estado de saude melhorou e aos 43 anos tornou-se mae.
A historia deles virou filme, "The Barretts of Wimpole Street", de 1934, dirigido Sidney Franklin


Napoleao Bonaparte e Josephine. Pensa em um homem apaixonado? Era esse general nanico. Infelizmente tiveram que desfazer o casamento por razoes de interesse do Império.
"Recebe milhoes de beijos, mas nao me dê nenhum porque eles queimam o meu sangue.
Minha alma esta triste, meu coraçao é escravo, minha imaginaçao me assusta. Adeus mulher, tormento, alegria, esperança e alma da minha vida que amo, que temo e que me inspira sentimentos ternos".

George Sand (pseudônimo masculino adotado pela Aure Dupin para ser aceita no meio literario) foi uma mulher muito excêntrica no séc. XIX, costumava vestir-se com trajes masculinos, divorciou em 1836 (época em que divorcios eram raros), escreveu sobre erotismo e sexualidade, teve varios amantes e Alfred de Musset foi um deles, ela o traiu com o médico dele e conta em seu livro "Ela e ele" o que realmente aconteceu entre os dois.

Juliette Drouet e o escritor francês Victor Hugo trocaram 23.650 correspondências durante meio século.

Katherine Mansfield e seu marido John Middleton Murry eram vizinhos do J.H. Lawrence e da Frieda. Katherine contava ao seu amigo, por cartas, as brigas de J.H. que espancava a mulher até deixa-la desacordada e toda machucada. Esse cara caiu e muito no meu conceito.



Virginia era casada com Leonardo Woolf, Vita era lésbica casada com um diplomata gay e era mae. Naquela época era impensavel assumir a sexualidade, entao era comum casamento entre homossexuais para manter as aparências. As duas tiveram um caso. Em uma das cartas, Vita pergunta se Virginia nao quer ir com ela para Espanha e ficar no meio dos ciganos, mas Virginia era muito discreta, portanto recusou o convite, termina a relaçao, mas escreve o livro Orlando e pede autorizaçao para Vita se podia publica-lo, pois o livro é um biografia sobre ela. 

Frida Kahlo era apaixonada pelo fotografo hungaro, Nickolas Muray: 


"Mi niño, 
Eu te adoro, meu amor, como nunca antes amei ninguém, creia-me".

Anais Nin escreve para Henry Miller:

Anais Nin
"Te amo, te amo, te amo. Eu me tornei uma idiota. Veja so o efeito do amor sobre as mulheres inteligentes, elas nao sabem mais escrever cartas".

Simone de Beauvoir para Nelson Algren:
"Meu bem amado marido sem casamento, eu preciso de você assim como você precisa de mim. A vida é fria e curta, por isso é dificil desprezar um sentimento como o nosso, quente e intenso. Se as circunstâncias nao me impedissem, eu teria ficado ao seu lado. Significou muito para mim um amor como esse".

Cartas de amizade

Katherine Mansfield e Virginia Woolf competiam na literatura, uma queria escrever melhor que a outra, uma apontava os "erros" da outra, inclusive Katherine detestou o livro "Dia e noite" da Virginia e esta nao gostou do livro "Felicidade (Bliss)", da Katherine, achou muito sentimental e sexual. Porque amiga nao é so pra elogiar nao, as duas cresceram na literatura de tanto que uma criticava a outra.



Hannah Arendt e Mary McCarthy eram as inteligentonas, queria umas amigas assim, falavam das filosofias de Platao, Kent, Kierkegaard, Nietzsche, Socrates, citavam Brecht.


Elizabeth Charlotte, princesa palatina de Rhein, casou-se com o Duque Philippe, irmao do Rei Louis XIV, enviava cartas para seus parentes na Alemanha:
"Aquilo que a gente se cala na vida, a gente fala nas cartas.  
Melhor ser um conde do império e ter liberdade do que ter um filho, somos apenas escravas coroadas".

Cartas de amor filial e maternal

Calamity Jane
Calamity Jane vivia no Velho Oeste americano, para sobreviver vestia-se com roupas masculinas e atirava como ninguém, apos a morte do companheiro, ela nao podia ser mae solteira, entregou a filha para um casal, escrevia para ela sempre, mas nunca enviou, as cartas foram entregues à ela apos seu falecimento. É de cortar o coraçao!

Marina Tsevetaieva à sua filha Alia que estava em um campo de trabalhos forçados: "Seja forte e corajosa!". Esta mulher e sua familia tiveram uma vida de cao.

Camille Claudel
Camille Claudel enviava cartas para sua mae, esta jamais visitou a filha que estava internada em uma instituiçao psiquiatrica. Camille foi muito injustiçada na vida e estava muito sozinha, nao podia contar com ninguém.

Cartas de mulheres de influência

A rainha Vitoria, da Inglaterra, era contra a igualdade entre homens e mulheres, achava um absurdo as mulheres almejarem as mesmas posiçoes profissionais que os homens, dizia que o movimento das mulheres era perigoso, anticristao e antinatural. Conservadorismo, monarquia e religiao fodem com o mundo!

Edith Stein era judia convertida ao catolicismo, virou freira, era teologa e filosofa alema. Escreveu ao Papa para interceder pelos judeus durante o Nazismo. Ela foi morta na câmara de gas em Auschwitz. Claro que a Igreja nao se opôs a Hitler e como a hipocrisia é grande, canonizaram Edith so para se livrar da mea-culpa, assim como fizeram com a Joana D'Arc, mataram-na depois transformaram-na em santa.
Simone Weill
Simone Weill era filosofa e militante politica, lutava contra o facismo e nazismo na Europa, escrevia aos aliados contando os absurdos e pedindo ajuda.



Lise Meitner era especialista em Fisica Atômica e professora de Fisica na Universidade de Berlim, como era de origem judaica, teve que imigrar por causa do Nazismo, ela trabalhou quase 30 anos com Otto Hahn, pesquisavam sobre radiaçao e fusao nuclear. Apos sua partida, ele ganhou o prêmio Nobel de fisica e levou todos os louros sozinho. Ela enviou cartas demonstrando seu descontentamento.

Cartas de mulheres viajantes

Isabelle Eberhardt, filha de imigrantes russos, converteu-se ao islamismo e aos 20 anos tornou-se nômade, veste-se com roupas masculinas e vai para os paises do Maghreb, visita lugares santos, bares e bordeis, vive entre os beduinos. Morreu em 1904, aos 26 anos, no deserto do Sahara.

Gertrude Bell foi a primeira mulher a ter um diploma de historia na Universidade de Oxford, foi para o Teera, aprendeu arabe, persa e turco.

Alexandra David-Neel estudou filosofia em Londres e era cantora de opera, casa-se e em seguida parte para Asia deixando o marido para tras, uma viagem que duraria 18 meses, durou 14 anos. Conheceu o Tibet, o Himalaia, a China e foi a primeira mulher ocidental a entrar em Llasa.

Karen Blixen era de uma familia rica na Dinamarca. Ao se casar, vai morar no Quênia onde seu marido é colonizador e planta café. Um dos passatempos dela era caçar leoes e tinha mania de falar "meus negros", como se eles fossem propriedade dela. Olha, sororidade tem limites! Assim nao tem como te defender, dona Karen, colonizadora, caçadora... Tô fora!

Que judiaçao essas leoas abatidas!

É um livro muito interessante, muitas mulheres sofreram injustiças, muitas eram corajosas, aventureiras, conquistaram espaços predominantemente masculinos, escreviam de forma brilhante, filosofavam, nao se calavam diante dos absurdos. Claro que tem outras que nao posso concordar com certas coisas, mas às vezes temos que separar a obra do artista/escritor, é muito dificil para mim, mas é o jeito porque senao a gente acaba odiando todo mundo.
Depois de ler Orlando, passei a perceber que para ser uma mulher livre nos séc. 18 e 19, elas tinham que se vestir de homem, adotar igualmente um nome masculino e isso nem sempre tinha a ver com a sexualidade delas, era apenas uma maneira de serem respeitadas. C'est la vie des femmes dans un monde macho!

domingo, 24 de abril de 2016

Balanço de leituras, séries, links, The Voice etc.

Inventei de fazer o BEDA (Blog Everyday in April) e nao rolou, nao consegui postar todo dia. Tenho muitos assuntos para por pra fora, mas nao tenho tempo. Prometi que colocaria "mulheres na direçao" todo fim de semana e ja desandou também, vou devagar e sempre porque ta dificil.

Leituras concluidas:


  • "O morro dos ventos uivantes", da Emily Brontë;
  • "Poemas", da Emily Brontë;
  • "Les plus belles lettres de femmes", de Laure Adler e Stefan Bollmann.
  • "Violette Nozière: Vilaine, chérie", de Eddy Simon e Camille Benyamina (HQ)
  • "Gaza 1956", de Joe Sacco (HQ)


Lendo:


  • "Pavillon de femmes", da Pearl Buck (Lendo mulheres que ganharam o Nobel de Literatura);
  • "Dom Quixote de la Mancha", é um livro que requer paciência e motivaçao, ja sao quase quatro meses enrolando.


Links 



Séries

Assisti à primeira temporada de Vinyl, produzida por Martin Scorsese e Mick Jagger, acontece nos anos 70, muito sexo, drogas e rock and roll. Trilha sonora, figurino e elenco perfeitos


Começou a quarta temporada de Orphan Black, nao consigo nem respirar mais. Amo muito!



The Voice 

O meu preferido do The Voice americano deste ano cantando uma das minhas musicas favoritas


Também gostei muito da indiana, ela tem uma voz suave, nao precisa gritar ou atingir altas notas para cantar lindamente.


A minha preferida do The Voice UK, nao ganhou, mas era da equipe do Boy George (amo!) e so cantou minhas musicas de fossa.


Ela cantando na batalha "Nothing compares 2U", do Prince (RIP), versao da Sinéad O'Connor, Boy George chorando e Paloma Faith divando.


No The Voice do Québec, minha preferida é a Geneviève


Gostei do Travis cantando Dream On, do Aerosmith


É isso!

Mulheres na direçao: Catherine Corsini (França)

Catherine Corsini tem 56 anos, é atriz, produtora e diretora francesa, seus filmes variam entre drama e comédia, eu particularmente prefiro os dramas. Eis os que assisti até o momento:

La belle saison (A Bela Estaçao), 2015 - Drama

Este filme é o meu preferido desta diretora, é lindo, triste e outros turbilhoes de emoçoes ao mesmo tempo. O trailer e o cartaz dao a entender que é um filme de amor entre meninas bem bonitinho, mas esta longe disso. A historia se passa nos anos 70 onde acontecia a segunda onda do feminismo, as mulheres se reuniam para lutar por seus direitos. As protagonistas sao: Delphine, uma camponesa que vai para Paris trabalhar, é lésbica, mas sua familia é tradicional e ela tem que "viver no armario", sacrificar seus amores, guardar as dores para si mesma para ser aceita em casa. Ao ir às reunioes feministas, percebe como sua vida e a vida de sua mae era injusta no campo, pois trabalhavam dia e noite sem receber nenhum salario, todo dinheiro do roçado ia apenas para o pai, so os homens participavam das reunioes da cooperativa, etc. A outra é Carole, uma estudante parisiense engajada nos movimentos sociais, até entao hetero, convida Delphine para se engajar na causa feminista e acabam se apaixonando. 
Outro assunto abordado foi sobre o tratamento dado aos homossexuais que eram internados em clinicas psiquiatricas, medicados a ponto de ficarem vegetando na cama e babando.
Uma das cenas mais lindas, as mulheres cantando o hino do MLF (Movimento de Liberaçao das Mulheres, criado pela Simone de Beauvoir). Chorei! A letra é muito poderosa.


Nous, qui sommes sans passé les femmes,
nous qui n'avons pas d'histoire,
depuis la nuit des temps, les femmes,
nous sommes le continent noir.
refrain :
Levons nous, femmes esclaves
Et brisons nos entraves,
Debout! Debout !
Asservies, humiliées, les femmes
Achetées, vendues, violées ;
Dans toutes les maisons, les femmes,
Hors du monde reléguées
(refrain)
Seules dans notre malheur, les femmes
L'une de l'autre ignorée,
Ils nous ont divisées, les femmes,
Et de nos sœurs séparées.
(refrain)
Reconnaissons-nous, les femmes,
Parlons-nous, regardons-nous,
Ensemble on nous opprime, les femmes,
Ensemble révoltons-nous.
(refrain)
Le temps de la colère, les femmes
Notre temps est arrivé
Connaissons notre force, les femmes
Découvrons-nous des milliers
Trois mondes (Três mundos), 2012 - Drama

Al foi promovido a gerente da concessionaria do seu futuro sogro, saiu para comemorar com os colegas, atropela um homem e foge sem prestar socorro. Juliette esta gravida, vê o acidente pela janela de seu apartamento e passa a ser a ponte entre o Al e a esposa do atropelado, uma imigrante ilegal vinda da Moldavia.
Juliette tem empatia, coloca-se no lugar do outro, talvez porque esteja gravida e tenha que aprender a lidar com um ser humano, apesar dos pesares. Ela se compadece da situaçao do Al, pois vê que ele nao é uma pessoa má, nao é um monstro, foi uma fatalidade. Também fica tocada com a viuva que vive ilegal, nao tem dinheiro e é controlada pelos homens conterrâneos que querem tirar vantagem da situaçao.

Partir, 2009 - Drama

Suzanne, depois de abdicar sua vida pelo casamento e maternidade, cansada de ser bela, recatada e do lar, retoma sua carreira de fisioterapeuta e passa a ter um caso com um peao de obras, um cara nada confiavel, que ja tinha sido preso, mas mesmo assim a sede era tanta que ela se aventurou.

Les ambitieux, 2006 - Comédia

Judith é editora de livros e Julien é um escritor que quer ser publicado e vai fazer de tudo para amansar a fera e conquista-la. É muito engraçado!

La nouvelle Eve, 1999 - Comédia


Camille, uma professora de nataçao, na casa dos trinta anos, solteira, espera o grande amor de sua vida, enquanto isso aventura-se com alguns parceiros ocasionais. Encontra acidentalmente Alexis, um homem casado, médico, pai de duas filhas e responsavel local do Partido Socialista. Ela tenta de tudo para tê-lo como amante, entra como militante no partido, passa a frequentar a casa dele, entre outras artimanhas. Tipico da comédia francesa nada "politicamente correta".

Minha lista "Mulheres na direçao" no Filmow (1738 filmes cadastrados e 170 assistidos até o momento).

Veja também:

sábado, 16 de abril de 2016

BEDA 16 - Mulheres que ganharam o Nobel de literatura

Para quem participa do #LeiaMulheres e de repente tem o interesse em ler as ganhadoras do Prêmio Nobel (1901 até hoje), eis aqui a lista:

1909 - Selma Lagerlöf, Suécia
1926 - Grazia Deledda, Italia
1928 - Sigrid Undset, Noruega
1938 - Pearl S. Buck, EUA
1945 - Gabriela Mistral, Chile
1966 - Nelly Sachs, Alemanha
1991 - Nadine Gordimer, Africa do Sul
1993 - Toni Morrison, EUA
1996 - Wislawa Szymborska, Polônia
2004 - Elfriede Jelinek, Alemanha
2007 - Doris Lessing, Inglaterra
2009 - Herta Müller, Alemanha
2013 - Alice Munro, Canada
2015 - Svetlana Alexievich, Ucrania

Dos 112 laureados, apenas 14 foram mulheres. Este ano a brasileira Lygia Fagundes Telles esta concorrendo, seria a primeira vez que as mulheres ganhariam em dois anos consecutivos. As mulheres da Alemanha foram as mais premiadas (3), enquanto os homens mais premiados foram os franceses (15).


BEDA (Blog everyday in April)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

BEDA 15 - El miedo

Estou lendo três coisas de escritores da América Latina que viveram na ditadura e coincidentemente os três falam de medo.

Eduardo Galeano
Mario Benedetti

Alejandra Pizarnik
BEDA (Blog everyday in April)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Livro + filme: Orlando, de Virginia Woolf

Para meu projeto "Literatura na sétima arte", li o livro "Orlando, uma biografia" escrito por Virginia Woolf, em 1928.
Orlando é um personagem androgino e vive a mais de 300 anos na terra. Nasceu homem e depois tornou-se mulher.
Este livro é uma declaraçao de amor à Vita Sackville-West, uma mulher que Virginia se apaixou aos 40 anos, Vita tinha 30, era mae de duas crianças e se vestia com trajes masculinos de vez em quando. Orlando é Vita. Virginia soube tratar de forma brilhante varios assuntos que infelizmente sao meio tabus até hoje.
É uma obra interessante do ponto de vista historico, pois narra o que acontecia na Inglaterra nos periodos da colonizaçao até a industrializaçao, fala também da condiçao feminina, discute sobre gênero e sexualidade, sobre aventurar-se em outros paises e fala da condiçao de ser escritor(a) em um mundo frio que preza pelo progresso e nao pelas as letras. Eis as partes que grifei e comentei:

Orlando era amante da leitura e da escrita:

"Lia frequentemente seis horas noite adentro; e, quando vinham pedir ordens para matar o gado ou colher o trigo, afastava o livro e olhava como se não compreendesse o que estavam lhe dizendo".
"Que deixasse os livros para os paralíticos e os moribundos. Mas o pior estava por vir. Pois, uma vez que a doença da leitura se instale no organismo, enfraquece-o, tornando-o presa fácil desse outro flagelo que habita no tinteiro e apodrece na pena. O infeliz dedica-se a escrever. E, se isto é ruim para um pobre homem cuja única propriedade é uma cadeira, uma mesa, sob a goteira de um telhado — que não tem, afinal, muito a perder —, a situação de um homem rico que possui casas e gado, empregados, mulas e linhos e ainda assim escreve livros é extremamente lamentável". 

Ao tornar-se mulher, lembrou de como pensava sobre elas enquanto homem:
"Lembrava agora como, quando rapaz, insistira em que as mulheres deviam ser obedientes, castas, perfumadas e caprichosamente enfeitadas. “Agora tenho que pagar pessoalmente por esses desejos”, refletiu; “pois as mulheres não são (julgando pela minha própria curta experiência do sexo) obedientes, castas, perfumadas e caprichosamente enfeitadas por natureza. Elas só podem conseguir esses encantos — sem os quais não desfrutam de nenhum dos prazeres da vida — por meio da mais tediosa disciplina." (mulher real x mulher idealizada)

Quando ela sentiu pela primeira vez o machismo relacionado à vestimenta feminina, nunca tinha percebido que poderia ser assediada por mostrar o tornozelo sem querer:
"Aqui, sacudiu o pé impacientemente e mostrou uma ou duas polegadas da perna. Um marinheiro que estava no mastro, e que olhou por acaso para baixo naquele momento, sobressaltou-se tão violentamente que perdeu o equilíbrio e só se salvou por um triz. “Se a visão dos meus tornozelos significa a morte para um homem honesto que sem dúvida tem mulher e família para sustentar, devo, por humanidade, mantê-los cobertos”, pensou Orlando. No entanto, suas pernas estavam entre seus maiores encantos, e ela começou a pensar a que estranha situação chegamos quando toda a beleza de uma mulher tem que ser mantida coberta para que um marinheiro não caia do mastro principal. “Que se danem!”, disse ela, compreendendo pela primeira vez o que em outras circunstâncias lhe teriam ensinado quando criança, ou seja, as sagradas responsabilidades de ser mulher."
“É melhor”, pensou, “estar vestida de pobreza e ignorância, que são as vestimentas escuras do sexo feminino; é melhor deixar o governo e a disciplina do mundo para os outros; é melhor abandonar a ambição marcial, o amor ao poder e todos os outros desejos masculinos, para que se possa apreciar completamente os mais sublimes arrebatamentos do espírito humano, que são”, disse em voz alta, como de hábito quando estava profundamente comovida, “contemplação, solidão, amor.”
"A mudança de roupas, diriam alguns filósofos, tinha muito a ver com isso. Futilidades vãs, como parecem, as roupas têm — dizem eles — funções mais importantes do que simplesmente nos aquecer. Elas mudam nossa visão do mundo e a visão do mundo sobre nós".
"Se usassem as mesmas roupas, é possível que sua maneira de olhar viesse a ser a mesma. Esta é a opinião de alguns filósofos e sábios, mas nós nos inclinamos por outra. Felizmente, a diferença entre os sexos é de grande profundidade. As roupas são apenas símbolos de algo extremamente oculto. Foi a transformação do próprio Orlando que determinou sua escolha pelas roupas de mulher e pelo sexo feminino".

A liberdade e a independência de ser homem x a passividade da mulher:
"Não serei capaz de quebrar a cabeça de um homem, nem dizer-lhe que mente até os dentes, nem desembainhar minha espada e traspassá-lo, nem sentar entre meus pares, nem usar uma coroa, nem andar em procissão, nem condenar um homem à morte, nem comandar um exército, nem exibir-me num corcel pelo Whitehall, nem usar 72 diferentes medalhas no peito. Tudo o que posso fazer quando pisar no solo inglês é servir chá e perguntar aos meus senhores como eles o preferem. Com açúcar? Com creme?"
"negar instrução à mulher para que ela não ria dele; ser escravo da mais reles sirigaita de saias e seguir como se fosse o Senhor da criação. — Céus!”, pensou, “como nos fazem de bobas — que bobas somos nós!” E aqui parecia haver alguma ambiguidade em seus termos, pois estava censurando ambos os sexos igualmente, como se não pertencesse a nenhum; e na verdade, até aquele momento, parecia vacilar; era homem; era mulher; conhecia os segredos e partilhava as fraquezas de cada um."
 "Orlando sentiu que por mais que o desembarque ali significasse conforto, significasse opulência, significasse importância e poder (pois ela sem dúvida caçaria algum príncipe nobre e reinaria como sua consorte sobre metade de Yorkshire), ainda assim significava convencionalismo, significava escravidão, significava fraude, significava negar o seu amor, acorrentar o corpo, franzir os lábios e conter a língua — então teve vontade de voltar com o navio e regressar para os ciganos".
Por ser mulher, nao poderia ter bens e nem receber herança:
As principais acusações contra ela eram: (1) que estava morta e portanto não podia ter propriedade alguma; (2) que era mulher, o que significa a mesma coisa (...) Todos os seus bens foram embargados, seus títulos suspensos, enquanto os processos estavam em curso. Assim, foi numa condição extremamente ambígua — sem saber se estava morta ou viva, se era homem ou mulher, duque ou ninguém — que partiu para sua casa no campo, onde, à espera do julgamento legal, tinha permissão da corte para residir, incógnito ou incógnita, conforme fosse o caso.
Os animais nao têm preconceito com seus donos:
"Ninguém manifestou a menor suspeita de que Orlando não fosse o Orlando que tinham conhecido. Se houvesse alguma dúvida na mente humana, a atitude dos veados e dos cachorros seria suficiente para dissipá-la, pois, como se sabe, os animais são melhores juízes de identidade e caráter do que nós". 
Orlando e os perrengues de ser mulher:
"ela não tinha a formalidade de um homem nem o amor masculino pelo poder. Ela possuía um coração excessivamente terno. Não suportava ver um burro ser espancado nem um gatinho ser afogado. Contudo, novamente observavam que detestava assuntos domésticos, levantava-se de madrugada e saía pelos campos no verão antes do nascer do sol. Nenhum fazendeiro conhecia melhor as colheitas do que ela. Podia beber com os mais fortes e gostava de jogos de azar."
"esquecera que as damas não devem passear sozinhas em lugares públicos — se um cavalheiro alto não se adiantasse e lhe oferecesse a proteção de seu braço. 
"Era então impossível sair para um passeio sem ficar meio sufocada, sem ser presenteada com um sapo de esmeraldas e pedida em casamento por um arquiduque?" (assédio na rua)
"As mulheres não têm desejos, diz esse cavalheiro entrando na sala de Nell; apenas fingimento. Sem desejos (ela o serviu e ele foi embora) a sua conversa não pode ter o menor interesse para ninguém. “É bem sabido”, diz o sr. S.W., “que, quando lhes falta estímulo do outro sexo, as mulheres não acham nada para dizer uma a outra. Quando estão sozinhas não conversam, arranham-se.” E, uma vez que não podem conversar quando estão juntas e quo arranhar não pode continuar indefinidamente, e como é bem sabido (como provou o sr. T.R.) “que as mulheres são incapazes de qualquer sentimento de afeição pelo seu próprio sexo e que se detestam mutuamente”, o que podemos supor que façam as mulheres quando se reúnem em sociedade?
Como esta não é pergunta que possa interessar a qualquer homem sensato, vamos nós aproveitar a imunidade de todos os biógrafos e historiadores de não pertencer a nenhum sexo para passar ao largo e meramente constatar que Orlando gostava imensamente da companhia das pessoas de seu próprio sexo, e deixemos para os cavalheiros o encargo de provarem, como adoram fazer, que isto é impossível." (homens querendo provar que mulheres sao inimigas umas das outras)
"A vida de uma mulher normal era uma sucessão de partos. Ela se casava aos 19 anos, e tinha 15 ou 18 filhos quando chegava aos trinta, pois os gêmeos abundavam. Assim nasceu o Império Britânico." (mulheres apenas para fins de procriaçao)
"Certamente, uma vez que ela é uma mulher, uma bela mulher, uma mulher na flor da idade, logo abandonará esse fingimento de escrever e meditar e começará, pelo menos, a pensar num guarda-caça (e, contanto que pense num homem, ninguém se opõe a que uma mulher pense). E então ela lhe escreverá um pequeno bilhete (contanto que escreva bilhetes ninguém se opõe a que uma mulher escreva)." (mulher bonita que so pensa em homem e escreve apenas bilhetes nao incomoda ninguém)
Sobre ser poeta:
"O ofício do poeta é, então, o mais elevado de todos — continuou. Suas palavras alcançam onde os outros falham. Uma simples canção de Shakespeare tem feito mais pelos pobres e pelos desgraçados do que todos os pregadores e filantropos do mundo"
Filme

O filme homônimo, dirigido pela Sally Potter (1992) é fiel ao livro, exceto o final. Tem uma fotografia linda, uma otima trilha sonora e atores maravilhosos. Tilda Swinton com seu look androgino arrasou no papel de Orlando. 
Curiosidade: a Rainha Elizabeth foi representada pelo ator Quentin Crisp
Orlando homem + Sasha 

Orlando mulher + Shelmerdine
vestidos malditos que limitam seus passos e pesam no seu corpo.

Este filme esta tb no meu projeto Mulheres na direçao

Musica

Seja o que você quer ser porque a gente so tem essa vida pra isso.


BEDA 14 (Blog everyday in April)

terça-feira, 12 de abril de 2016

BEDA 12: HQ biografica "The Doors"



cantando sobre o complexo de Édipo, ngm entendeu nada
sobre a dor
sobre a desobediência

de onde surgiu o nome da banda
Eu e Jim nascemos no mesmo dia, em anos diferentes, obviamente!

BEDA (Blog everyday in April)

segunda-feira, 11 de abril de 2016

BEDA 11: O sonhador da informatica

Aaron Swartz, o criador do RSS e do Reedit, achava importante compartilhar conhecimento, ajudarmos uns aos outros, aprender sem ir à escola. Na sua ingenuidade de adolescente, acreditava que tudo deveria ser colocado on-line para ser consultado gratuitamente. Até o FBI desconfiar que ele era um comunista louco (para os americanos, alguém que faz algo de graça é comunista). Como assim? Compartilhar coisas gratuitamente? Colocar todo mundo no mesmo pé de igualdade? Tentar ser altruista em um mundo egoista? Pode nao, tem que pregar o odio, colocar todos contra todos, segregar e nao unir.

Foi ai que ele teve a decepçao da sua vida, era um adolescente nerd sonhador, tentou baixar os arquivos do MIT para disponibilizar a ciência e o conhecimento para o mundo e ia ser condenado por isso, entao que ele decidiu colocar fim aos seus dias enforcando-se. O mundo nao estava preparado para ele. O proprio defendia as mulheres, achava injusto o machismo instaurado, sendo que muitas delas ajudaram desde o inicio na area de informatica e nunca foram reconhecidas.

A Internet nao é para ser tao democratica assim, você nao pode ser igual ao outro, você tem que ser melhor que o outro, ter mais que o outro, assim como prega todas as politicas socio-econômicas.

Deixo-vos o documentario da vida do Aaron que foi feito graças às doaçoes de pessoas generosas do Kickstarter e  disponibilizado gratuitamente na Internet, do jeito que ele gostaria que fosse.




BEDA (Blog everyday in April)